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Fantasia – Conto Espírita

FANTASIA

Conto espírita por Luiz Pimentel

Aos meus amigos

Divino Francisco, Emídio Brasileiro e Mariana Lelles

Pelos incentivos e ajuda,

Meus agradecimentos.

Prólogo

Este conto espírita, obra-prima e, talvez, única, foi escrita em golfadas intuitivas e, às vezes, quebradas na sequência, desde seu início até o seu final. Conta a história de um jovem do interior fluminense que, almejando melhorar sua vida, resolveu mudar-se para a capital do Rio de Janeiro, amparado por uma tia que ali residia. Após algum tempo, levado por amizades, conheceu os morros de samba e encantou-se pela beleza e alegria que o ambiente lhe oferecia. Resolveu envolver-se mais profundamente e começou a participar assiduamente das festividades e eventos da “Escola de Samba” local, com pretensão de desfilar por tal Escola no carnaval que se aproximava. Durante as idas e vindas até a Escola, altas horas da noite, transitava pelos becos escuros da favela, não se importando com o alto grau de perigo que isto lhe oferecia. Durante este período, encontrou três amigos que frequentemente lhe faziam companhia, minorando um pouco a periculosidade. Porém, nem sempre estes amigos apareciam e, em uma destas circunstâncias, voltando a sós para casa, envolveu-se em uma batida policial contra os bandidos que, em bandos, habitavam aquela região. A partir de então, esta história toma um novo rumo. Passa a narrar situações e fatos que deixam o nosso personagem completamente perplexo e intrigado, sem entender exatamente o que está acontecendo.

Capítulo 1 – Chegando ao Rio

Era um final de tarde de domingo e eu desembarcava na rodoviária do Rio de Janeiro. De pé, ao lado do ônibus, prestava atenção ao desespero das pessoas em busca de seus pertences.

Aos empurrões, somava-se o barulho ensurdecedor do ambiente: buzinas, gritos, freios; a sirene da polícia que passava na rua; tudo me constrangia.

Olhei para o alto e vi um céu tomado por nuvens escuras. Pensei: – isto, certamente não pode ser considerado uma mensagem de boas-vindas!

Lembrei de minha pequena cidade, quase um povoado, que a pouco largara para trás. Àquela hora, certamente, ouviria o canto das cigarras e o reboliço dos passarinhos, em revoadas, comemorando o final de tarde. Era neste período que eu costumava observar, maravilhado, os pássaros voando, em formação, em direção aos seus nichos de repouso.

Cresceu em mim um grande arrependimento por haver deixado aquele lugar de paz. Sobressaltado, vi que eu já era o último a reclamar os pertences. Tomei a bagagem, que era representada por somente uma velha mala de couro, e me dirigi ao portão de saída que dava para o salão de recepção da rodoviária.

Logo percebi minha tia, que acenava com as duas mãos. Em seu rosto, um generoso sorriso me dava as boas-vindas. Reanimei-me e procurei recompor meu humor.

Com forte abraço nos saudamos e ela me beijou o rosto com carinho. Ao seu lado, uma moça franzina, de pele morena e com expressão jovial, parecia nervosamente aguardar uma apresentação.

O entusiasmo e o carinho de minha tia fizeram-me lembrar das vezes em que nos visitava, em nossa casa. Tudo virava festa e contentamento, enquanto ela permanecia conosco. Quando ela partia de volta, nos deixava saudades e um grande vazio, pela falta que fazia.

Das três irmãs, Maria de Fátima, Maria da Conceição e Maria Aparecida, ela era a mais velha e minha mãe a mais nova. A tia do meio – Maria da Conceição – havia falecido ainda jovem, vítima de uma epidemia ocorrida na cidade. Eu ainda não havia nascido. Com a tragédia, as duas irmãs se tornaram mais amigas. Lembro como foi sofrido para as duas se separarem quando minha tia mudou-se para o Rio de Janeiro. Desde então, ela nos visitava com muita frequência.

Nas suas últimas visitas, falava à minha mãe da necessidade de levar-me para a cidade onde minhas chances de progredir eram muito maiores, e que somente assim eu poderia ajudá-la no futuro. Eu ouvia aquelas conversas sempre com muita alegria e ansiedade. Apesar de gostar muito de minha cidade, desejava realmente poder estudar e trabalhar em alguma boa empresa. Infelizmente, não teria nenhuma chance ali onde estava. Foi assim que, na sua última visita, acertamos, finalmente, a tal mudança que agora estava acontecendo.

Minha tia me olhou sorrindo, como se ainda não acreditasse que eu realmente estava ali. Não largava minhas duas mãos. Depois, olhou para a moça ao nosso lado e disse:

– Essa é Janaína. Ela mora comigo!

– Sim, eu sei tia. Muito prazer Janaína!

Janaína fez um gesto com o corpo, como uma reverência, e continuou sorrindo.

-Vamos – disse minha tia. Vamos sair daqui.

Logo chegamos à casa. A distância entre a rodoviária e a residência de minha tia era pequena.

Durante o trajeto observava as construções – na maioria, de aspecto antigo, e as ruas que careciam de limpeza adequada. A má impressão da chegada não impediu minha alegria de finalmente morar no Rio de Janeiro, desejo antigo, que agora se realizava. Finalmente chegamos!

A casa também mantinha o aspecto de construção antiga, mas, internamente, os cômodos eram bastante espaçosos. Uma sala ampla, uma cozinha e área de serviços que parecia ter passado por recente reforma. Dois quartos – um deles, que era ocupado por Janaína, e eu passaria a ocupar. Um banheiro médio, mas muito bonito – era a parte mais moderna da casa. Janaína dividiria o quarto com a tia.

Imaginei como teria sido difícil viver naquela casa após a morte de meu tio Alfredo. Deixou uma boa pensão para minha tia, mas a solidão e a adaptação à nova condição de vida custaram muitos momentos de tristeza e lágrimas. Foi nesta ocasião que buscou a companhia de Janaína. Ela vivia em um abrigo para jovens órfãos que ultrapassaram a idade normal para adoção.

Janaína se adaptou muito bem à companhia de minha tia, agora, eram como verdadeiras mãe e filha. Estudava em uma escola municipal bem próxima de casa e, durante o dia, cuidava de tudo e poupava minha tia do trabalho mais pesado. Fazia tudo com muita alegria, e sempre agradecia pela nova família que Deus lhe havia dado. As duas viviam em completa harmonia e alegria, o que era percebido logo, por todos que visitavam aquele lar.

Às terças-feiras, antes de sair para a escola, Janaína enfeitava a mesa da sala com flores cultivadas por ela mesma em um pequeno jardim nos fundos da casa. Sobre a mesa, os livros de mensagens espirituais: o “Livro dos Espíritos” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec. Eu e minha tia éramos convidados a sentar à mesa, assim como algum visitante que estivesse presente. Naquele momento, a família realizava o Culto no Lar. Fazíamos nossas preces e solicitávamos a ajuda de Jesus para vencer os obstáculos da vida. Depois, com grande alegria, ela se dirigia à escola. Não sem antes despedir-se de mim e minha tia com um beijo na face.

Capítulo 2 – Trabalho e Escola

Era uma linda manhã de domingo. Eu, de pé na porta de casa, observava a rua completamente deserta. Um incrível silêncio e uma leve brisa me enchiam de felicidade. O céu estava límpido e de um azul profundo.

Havia passado uma semana desde que eu chegara ali. Duas surpresas me aguardavam para aquele dia. Minha tia, sentada na frente da TV, chamou-me para sentar junto a ela: Tenho uma boa notícia para você – disse sorrindo e me acariciando a mão – Você trabalhará no mesmo escritório onde trabalhou seu tio Alfredo. Amanhã você levará seus documentos e já vai começar! – disse contente.

Meu tio Alfredo fora uma pessoa muito simpática, que cativava a todos com sua amabilidade sempre presente e uma maneira agradável de comunicar-se. Foi graças ao meu tio que, prontamente, fui convidado a trabalhar no mesmo escritório da empresa em que trabalhara por muitos anos.

Fiquei muito feliz com a notícia e logo me pus a organizar todo o necessário para o dia seguinte.

O dia passou rápido. Já era tardinha e eu lia um romance em meu quarto quando Janaína bateu à porta. Com a faceirice de sempre, me convidou a acompanhá-la até a copa, onde minha tia já me aguardava.

Era a segunda surpresa do dia.

Sobre uma mesinha forrada com toalha bordada, um bolo de aniversário, copinhos e refrigerante gelado, tudo para comemorar minha primeira semana de Rio de Janeiro. Minha tia comentou que Janaína fizera questão de comemorar no mesmo horário em que eu havia chegado à rodoviária. Cantamos parabéns, eu apaguei a velinha que simbolizava aquela semana e depois nos abraçamos felizes.

O dia seguinte foi muito diferente para mim, era a primeira vez que trabalharia em um escritório.

Era uma empresa de engenharia que funcionava no Centro da cidade e ocupava o andar inteiro de um prédio.

Tia Fátima fez questão de me acompanhar, queria ter certeza de que nada daria errado. Eu lhe agradeci muito pela companhia, pois, realmente, estava muito nervoso.

Felizmente, tudo correu muito bem. Fui bem recebido pelos novos colegas que vieram me cumprimentar e desejar boas-vindas. Fui levado ao setor de almoxarifado, onde trabalharia. O chefe do setor, muito amável, me cumprimentou e passou a mostrar todos os procedimentos, depois, pediu a outro colega que desse continuidade ao meu treinamento.

Ao final da tarde, de volta para casa, Janaína me esperava na porta.

Vamos Alaor, te apressa, hoje será seu primeiro dia na escola!

Rapidamente, tomei banho, me arrumei, comi algo às pressas, e saímos os dois em direção à escola.

Capítulo 3 – Ferreirinha

Ferreirinha foi o primeiro colega que arrumei na sala de aula. Seu primeiro nome era Noel, mas todos o conheciam e chamavam por Ferreirinha. Depois, ele me confidenciou que seu nome Noel era uma homenagem de seus pais ao famoso Noel Rosa, dada pelos seus pais. Também segredei ao Ferreirinha que me chamava Alaor de Jesus, mas que não havia aí nenhuma homenagem.

Como não? Claro que foi em homenagem a Deus, nosso Pai! Falou isso e, rapidamente, saiu cantando e sambando com uma ginga que somente ele era capaz de fazer.

Fiquei sorrindo comigo mesmo pelo que ouvi do Ferreirinha. Gostaria de conversar mais sobre este assunto com ele, porém era muito difícil retê-lo por mais que alguns segundos. Mantive a fé de que ainda teria esta oportunidade.

Aprendi muito com Janaína, que estava sempre disposta a responder minhas perguntas e depois do culto no lar, sempre reservávamos um tempo para continuar conversando sobre o tema. Janaína, incansável, lia e interpretava textos e mensagens para mim e minha tia. Eu sempre tinha muitas dúvidas e ela pacientemente procurava me esclarecer. Eram muito agradáveis aqueles momentos em que nos reuníamos, após o Culto no Lar.

Todos na escola conheciam o Ferreirinha, era um tipo extrovertido. O tempo inteiro estava batucando e cantando os enredos de Escola de Samba. Era mesmo uma figura muito popular e amiga de todos.

Certo dia, Ferreirinha me convidou para conhecer sua Escola de Samba. Não aceitei de imediato, pois me sentia muito acanhado neste meio de sambista. Porém, Ferreirinha não desistia do seu intento, sempre que tinha oportunidade ele refazia o convite.

Você vai só pra conhecer. Não precisa participar! – dizia ele.

Tanto insistiu Ferreirinha que terminei por aceitar, só pra conhecer!

Passei a frequentar a Escola de Samba com Ferreirinha, pior, comecei a gostar de tudo aquilo. Sentia-me bem naquele ambiente de alegria e euforia. Os sons do batuque da bateria me agradavam muito. Eu me sentia como se estivesse descobrindo algo novo em mim mesmo, naquele ambiente onde tudo me parecia excêntrico e maravilhoso.

Minha tia, embora não tenha gostado da minha nova opção de lazer, não me proibiu de participar. Entretanto, fez questão de sentar-se comigo e conversar longamente a respeito dos perigos que eu poderia enfrentar.

Falou-me sobre as drogas, seus perigos e a facilidade de ser iludido por traficantes; que eu teria que ter muito cuidado com as amizades; com os convites; com ofertas que parecessem isentas de maldade e cheias de generosidade. O perigo estaria por todos os lados e eu teria que saber enfrentar. Finalmente, me alertou para procurar estar sempre em companhia de alguém conhecido e evitasse o isolamento.

Assim, continuei a viver um dia após o outro, usufruindo de tudo que a cidade podia me oferecer; mas sempre lembrava das recomendações de minha tia e me mantinha cauteloso e observador a todo momento.

Divertia-me bastante sempre que ia aos ensaios da Escola de Samba, mas quando tudo terminava e eu tinha que retornar para casa era sempre um dilema. Procurava descer com grupos de pessoas mas, ao longo do caminho, terminava sempre quase só e, às vezes, sozinho mesmo.

Em uma dessas ocasiões, encontrei três rapazes que desciam juntos, com um grupo de pessoas. Passamos a conversar enquanto andávamos, eles se apresentaram como Mário, Franco e Fernando. Perguntei para onde iam e fiquei surpreso ao saber que moravam próximos a mim. Senti-me satisfeito pela companhia e por perceber que, aparentemente, eram pessoas de confiança. Eu estava pondo em prática as recomendações de minha tia. Chegamos à porta de minha casa, me despedi dos três amigos que seguiram em frente, conversando animadamente.

Entrei em casa com muito cuidado, pois todos já estavam dormindo. Após uma chuveirada renovadora recolhi-me ao meu quarto e dormi sono profundo.

Capítulo 4 – A Fantasia

Certa noite, sentado na sala de aulas, eu aguardava a entrada do professor de biologia quando repentinamente, entrou o Ferreirinha e sentou-se na carteira à frente. Virou-se para mim, começou a tamborilar, com os dedos, sobre minha carteira e, olhando-me fixamente perguntou:

E aí de Jesus, como tu tá lá na outra escola?

Bem! – respondi. Estou gostando muito, conheci muita gente legal e estou satisfeito e também participando.

Tu vai sair em qual ala?

Na dos palhaços. A fantasia já está quase pronta. E você? – quis saber.

Eu? – perguntou surpreso. Pensou um pouco e depois respondeu em tom confidencial:

Mano, tu nem imaginas. Vou sair em um carro; um dos maiores!

Sambando, em cima, como destaque? – perguntei interessado.

Nada, mano – falou entristecido – vou empurrando… embaixo!

Disse isto e rapidamente, como sempre, saiu da sala cantando e sambando com seu gingado inconfundível.

O professor entrou na sala e eu me preparei para mais uma aula sobre biologia.

Sexta-feira, véspera do desfile, estava marcado para pegar a fantasia e realizar o último ensaio. Todos teriam que estar bem afinados com o enredo para fazer bonito no sambódromo.

Neste dia, saí direto do trabalho para o morro onde ficava a escola. No início da subida havia uma enorme escadaria de cimento para facilitar o acesso às ruas superiores.

Ao me aproximar dos primeiros degraus de subida notei que havia duas viaturas policiais estacionadas, uma de cada lado da rua. Dois grupos de policiais armados conversavam ao lado de cada viatura. Olhei rapidamente para eles e continuei no firme propósito de subir a escadaria. Então, ouvi um dos policiais me chamar.

– Ei, você! – gritou o policial caminhando em minha direção. Parei e fiquei aguardando sua abordagem.

– Você mora aí? – perguntou.

– Não – respondi. Vou pegar minha fantasia na escola.

– Ok, tá bom. Mas toma muito cuidado, o bicho vai pegar hoje aqui. Continuou a olhar-me e, em seguida, retirou-se em direção ao seu grupo.

Eu fiquei parado, procurando analisar sobre o que o policial me falou. O fato de ser o último dia para pegar a fantasia e discutir sobre detalhes do desfile me fez tomar coragem e retomar a subida.

Ainda inseguro olhei para o grupo de policiais, olhei para as ruas laterais semidesertas, olhei para o alto da escadaria e resolvi subir.

Segui pelas ruas estreitas e pouco iluminadas. As vielas estavam estranhamente desertas. Encontrei pouquíssimas pessoas e algumas corriam ou andavam apressadas. Continuei adiante, mas me sentia ofegante e o coração batia forte. Eu estava com medo de que algo ruim acontecesse. Senti enorme alívio quando, finalmente, vi a escola toda iluminada e cheia de gente alegre.

Como de costume, a bateria afinava os instrumentos e, entre uma afinação e outra, realizava uma operação completa, para deleite dos foliões.

Procurei meus três amigos, Mário, Franco e Fernando – já pensando na volta para casa, mas não os encontrei. Fiquei apreensivo, mas procurei relaxar. Logo um grupo de amigos se aproximou e começamos a conversar animadamente. Esqueci os problemas da descida.

Quando o ensaio terminou, olhei para o relógio e me assustei – já passava da meia-noite!

Ocorreu-me a ideia de que já era sábado, dia do desfile, e eu teria que descansar bastante antes de enfrentar a passarela. Fiquei nervoso e resolvi ir logo para casa. A imagem das ruelas mal iluminadas e desertas surgiu em minha mente. Lembrei do aviso do policial e senti enorme receio de voltar. Procurei novamente pelos três amigos, em vão, não os encontrei – não vieram desta vez. Teria que enfrentar o medo e descer sozinho. Tomei coragem, fiz o sinal da cruz e iniciei a descida.

Capítulo 5 – A Descida

Como eu havia imaginado, as vielas continuavam ermas e silenciosas. Conseguia ouvir perfeitamente os sons de minhas passadas e as batidas do coração acelerado. Apressei o passo o mais que pude, mas minha vontade era sair correndo em disparada. Só não o fiz porque a descida escorregadia não permitia. Já não conseguia mais ouvir nenhum barulho vindo da escola. No momento, só conseguia ouvir meus próprios passos, minha respiração ofegante e o coração acelerado.

Mais um pouco de esforço e chegaria às escadarias – último trecho a ser vencido naquele estado estressante. Descendo as escadarias me sentiria mais aliviado e poderia até parar um pouco para descansar.

Comecei a ouvir vozes nas proximidades, alguém falava muito alto, em tom ameaçador. Não parei para verificar nada – queira logo sair dali – continuei em passos acelerados. Prendia firmemente o pacote contendo a fantasia contra o peito.

A gritaria continuou mais forte e percebi pessoas correndo na rua de cima. Ouvi alguns disparos seguidos de arma de fogo – comecei a correr. Desejei deixar aquele local o mais rápido que pudesse e não me preocupava mais a possibilidade de levar tombo. Novamente ouvi os disparos e agora os gritos pareciam mais próximos de mim. Entrei em desespero e corri mais rápido ainda.

Finalmente, consegui visualizar o início da escadaria. Continuei correndo em direção a ela, na certeza de que ali encontraria refúgio.

Quando pisei no primeiro degrau senti um grande empurrão nas minhas costas, desequilibrei-me e cai, rolando alguns degraus. Em seguida, levantei, peguei o pacote com a fantasia e continuei a descer rapidamente. O medo me impulsionava escada a baixo, mas a curiosidade me fez olhar para o topo da escadaria tentando visualizar o que estava acontecendo – quem me haveria empurrado com tanta violência, naquela situação?

O ambiente estava escuro, mas consegui vislumbrar alguém caído nos primeiros degraus. Talvez seja a pessoa que me empurrou – pensei. Talvez, num gesto de salvar-me tenha feito aquilo e terminou por sofrer alguma consequência. Pensei logo em voltar e ajudar aquela pessoa, mas alguém me puxou com força pelo braço esquerdo e me arrastou dali, escadaria abaixo.

Quando chegamos à primeira rua de baixo, após as escadarias, foi que consegui identificar meu sequestrador, era Fernando.

Os outros dois amigos o aguardavam logo à frente. Paramos ali por alguns instantes para que eu me recuperasse. Continuava o tiroteio, agora já mais distante.

Sentado no meio-fio da calçada, e rodeado pelos três amigos eu procurava respirar fundo e relaxar. O susto que levei fora demasiado, e eu estava exausto. Naquele momento, jurava a mim mesmo que não voltaria mais ali. Depois de alguns minutos, Mário abaixou-se junto a mim e falou baixinho:

– Já podemos ir?

Acenei afirmativamente com a cabeça, e ele ajudou a levantar-me.

Saímos, os três, a andar vagarosamente pela rua em direção à minha casa. Agora, que já pensava, raciocinava e a tranquilidade havia voltado, quis saber de Fernando o que os levou até ali, naquela hora da madrugada. Foi Franco quem me respondeu:

– Ouvimos no noticiário que haveria uma batida da polícia naquela região. Procuravam por um bandido traficante, muito perigoso, que teria se refugiado naquela comunidade. Pensamos que talvez você precisasse de companhia para voltar para casa. Quando chegamos à escadaria, vimos você descendo apressado. Fernando se adiantou para te alcançar. Eu e Mário ficamos aguardando na rua de baixo.

Ouvi o que Franco disse e, embora considerando bastante estranho tanta preocupação e generosidade por parte deles, me senti na obrigação de agradecê-los muito.

– Eu vi que alguém foi atingido, e estava caído nos primeiros degraus de cima da escadaria. Eu já estava disposto a ir ajudar quando Fernando me pegou – comentei.

– Não vi nada – afirmou Fernando sorrindo.

Neste momento eu já estava bem à frente da porta de casa. Despedi-me e agradeci mais uma vez aos três amigos.

Fernando se aproximou de mim olhando-me de frente, pôs a mão sobre meu ombro e disse:

Hoje, bem cedo, te pegaremos lá na pracinha. Vamos te levar a um belo lugar! – disse sorrindo.

– Onde? – quis logo saber.

– Segredo – disseram em uníssono, e seguiram em direção à praça.

Capítulo 6 – O Dia Seguinte

Estava certo de que cairia na cama e desmaiaria até as oito horas, mas não foi assim que aconteceu. O sono não apareceu. Fiquei em claro até que os primeiros barulhos externos me avisassem de que era hora de levantar.

Durante as horas de insônia pensei muito em tudo que havia acontecido. Considerei a sorte de estar ali, em minha cama, são e salvo. Lembrei da pessoa caída na escadaria – quem seria o coitado?! Com certeza, saberia através dos noticiários.

Cogitei em quanto minha tia e Janaína deveriam ficar preocupadas e apreensivas com minhas idas na Escola de Samba. Ocorreu-me a possibilidade de minha tia opor-se a minha participação no desfile, eu teria que fugir dessa possibilidade. Não dava para voltar atrás depois de tantos sacrifícios e os gastos com a fantasia. Mesmo assim, ela estava cheia de razão quando se preocupava comigo. Prometi a mim mesmo que seria a última vez e, logo que levantasse, faria esse comunicado a ambas.

Pensei em meus três amigos e no quanto ficáramos íntimos nestes últimos dias. Como eram agradáveis, gentis e generosos. Bem mais do que se poderia esperar das pessoas geralmente.

O fato é que eu me sentia feliz comigo mesmo. Mal podia esperar o momento de levantar e voltar a conviver com pessoas tão maravilhosas.

Ainda divagava em pensamentos quando notei pelas frestas da janela, e também por debaixo da porta, que os primeiros raios de sol da manhã já haviam chegado. Permaneci quieto por mais alguns minutos, ainda era muito cedo e, pelo costume, nos fins de semana, minha tia e Janaína demoravam um pouco mais para saírem da cama.

Ouvi o telefone tocar na sala. Fiquei atento esperando que alguém pudesse atender.

Não era normal o telefone chamar àquela hora e, principalmente, no sábado! Tocou mais duas ou três vezes e minha tia atendeu ainda com voz de sono.

– Sim, sou eu! – falou respondendo a alguém do outro lado da linha.

Alguns segundos de silêncio, e ela falou novamente. Desta vez sua voz parecia nervosa e insegura:

– Não, não pode ser! – falou alto.

Fiquei ainda mais atento, buscando ouvir e entender o que acontecia. Mais alguns segundos de silêncio e minha tia falou novamente:

– Onde? – perguntou nervosa.

Alguém lhe respondeu e ela rapidamente falou:

– Já estou indo! – e desligou o telefone.

Tentei entender o que poderia ter causado aquele diálogo, mas nada me ocorria que pudesse justificar o episódio.

Minutos depois, percebi que minha tia saía apressadamente após passar algumas recomendações a Janaína.

Resolvi levantar-me. Estava curioso e preocupado demais, queria saber o que estava acontecendo. Certamente Janaína iria me contar.

Levantei, mas não encontrei Janaína na sala, talvez estivesse no quarto. Fui ao banheiro, tomei banho, escovei os dentes e, como de costume, já sabia que um delicioso café da manhã estaria disposto na mesa da copa. Saí do banheiro e fiquei desapontado, não havia nenhuma mesa posta. Janaína continuava em seu quarto, pois eu não conseguia vê-la na cozinha ou na sala, onde deveria estar. Voltei ao meu quarto e me vesti para sair, encontraria os três amigos conforme havíamos combinado. Estava curioso para saber qual seria o tal lugar onde prometeram me levar.

Peguei o pacote com a fantasia e prendi debaixo do braço. Pensava em levar comigo ou guardar com os amigos até o momento de sair para o desfile. Minha intenção era voltar para casa somente depois do desfile. Queria evitar, a todo custo, o olhar de desabono de minha tia ou, até mesmo, a sua discordância austera quanto à minha participação. Certamente, eu acataria sua decisão.

Quando sai do quarto finalmente vi Janaína, de pé, entre a copa e a cozinha. Caminhei em sua direção e ela me olhou assustada. Não liguei para o espanto e fui logo perguntando o que havia acontecido para deixar a tia tão nervosa, tão cedo da manhã, a ponto de sair precipitadamente.

Janaína me olhava de forma estranha e amedrontada. Não me respondeu nada, apenas abaixou a cabeça e pôs as mãos sobre os olhos fechados. Ficou ali, parada na mesma posição enquanto eu insistia para que me respondesse. Desisti da insistência e comuniquei a minha ideia de retornar somente após o desfile. Depois, sai nervoso sem entender a atitude de Janaína.

Capítulo 7 – Encontro na Praça

Andei até a praça e encontrei os três amigos sentados em um banco, me aguardando. Cumprimentei os três e sentei ao lado.

Mário se aproximou de mim e perguntou baixinho:

– Que passa amigo? Pareces triste!

Os três me olhavam esperando uma resposta. Permaneci calado por uns segundos, procurando uma maneira de relatar o ocorrido.

Após uma respiração profunda, passei a narrar o que presenciei logo cedo pela manhã. Os três me ouviam com atenção e, após o relato, Fernando falou:

– Não te preocupes. Seja o que for que haja acontecido, com certeza será resolvido!

Os outros dois acenaram afirmativamente com a cabeça, concordando com o que dissera Fernando.

Não sei porque mas, aquelas palavras ditas com tanta confiança restabeleceram-me os ânimos a ponto de sorrir e perguntar:

– E então, onde pretendem me levar?

– Para que te acalmes e voltes a sorrir vamos te revelar o roteiro de nosso passeio. Você será nosso convidado especial – disse Franco sorrindo.

– Vamos visitar o Cristo Redentor – continuou Mário. Depois, visitaremos diversos pontos agradáveis da Floresta da Tijuca. Temos certeza de que você vai gostar muito!

– Mas, como iremos? – quis logo saber.

– Um amigo nos levará de carro, não te preocupes – falou Franco dando tapinhas no meu ombro.

Eu estava radiante, iria finalmente realizar um desejo antigo. Desde que havia chegado ao Rio planejava este passeio ao Cristo com minha tia e Janaína. Pena que não poderia levá-las agora comigo, mas mantinha a minha promessa de fazê-lo brevemente.

Capítulo 8 – Visitando o Cristo Redentor

Continuávamos sentados no banco da praça à espera do amigo que nos levaria ao passeio no Cristo Redentor e pela Floresta da Tijuca.

Enquanto aguardávamos, passamos a observar o movimento daquela pracinha. Era a única existente no bairro. Era bem cuidada e bem arborizada. Os diversos bancos, espalhados harmoniosamente, estavam na maioria protegidos do sol pela sombra das árvores. Havia uma parte gramada e bem aparada e outra parte coberta com pedras especiais que formavam desenhos. Geralmente, nos finais de semana, havia muitos frequentadores. Crianças aproveitavam para exercitarem-se em suas bicicletas, enquanto as babás permaneciam, em grupos, atualizando as últimas notícias do bairro.

Havia uma pessoa conhecida por todos os frequentadores da praça. Ele passava todo o dia ali quando não estava dormindo sob a marquise da padaria. Ninguém sabia seu nome verdadeiro e o chamavam pelo apelido de Caroço – talvez em função de seu rosto tomado por grande número de cistos epidérmicos.

Caroço tinha comportamento excêntrico, estava sempre gesticulando e falando sozinho. Entretanto, não se via nele nenhuma ação violenta contra qualquer pessoa. Por isso, talvez, ninguém ligasse para suas doidices.

Algumas vezes fora internado em asilos específicos, porém sempre retornava depois de algum tempo.

Eu estava absorto, observando os detalhes daquele ambiente, quando fui chamado à atenção pelo Franco.

No outro lado da praça acabava de estacionar um reluzente automóvel amarelo. Tinha um estilo antigo, mas aparentava-se novíssimo. O condutor abriu a porta e saiu postando-se ao lado do mesmo. Era um senhor, de cabelos brancos e muito bem cuidados. Embora denotasse idade avançada seu semblante era muito jovial. Acenou em nossa direção alegremente e permaneceu de pé, onde estava.

Franco foi o primeiro a levantar-se e dirigir-se ao carro, nós o seguimos e nos aproximamos do veículo.

Mário notou que eu observava o carro com aparente intranquilidade e me falou em tom zombeteiro:

– Não fiques preocupado Alaor, este magnífico automóvel vai até mesmo onde outros, novinhos, não conseguem chegar!

Todos sorriram muito do comentário de Mário, todos menos eu, que não consegui captar o sentido picante embutido na observação.

Mário continuou:

– Nosso motorista e amigo Atílio tem mais experiência do que você possa imaginar. Conhece o caminho que leva ao Cristo como ninguém!

Novo acesso de risos de todos e eu já começava a me sentir desconfortável por não conseguir entender aquela motivação. Fiquei quieto e comecei a pensar sobre o assunto.

Deveria existir algo muito engraçado embutido nos comentários e que eu não conseguia compreender. Nada me ocorria e resolvi abandonar aquela intenção. Procurei um lugar no banco de trás do carro, ele era mesmo muito confortável. Imaginei que seria um desses modelos importados há alguns anos. Mário e Franco sentaram ao meu lado e Fernando seguiu à frente com Atílio.

Começamos a subida pelo Cosme Velho. Eu, já bem mais confiante, observava a paisagem que começava a surgir cada vez mais deslumbrante. O caminho, ora mais íngreme, ora mais plano, oferecia sempre uma vista espetacular, tanto da floresta quanto da cidade que ficava para baixo.

Paramos diversas vezes para observar melhor a paisagem e a vista da cidade. Eu estava realmente muito feliz com o passeio. Não sabia como agradecer aos amigos por aquele presente inesperado.

Finalmente, chegamos bem próximos ao Cristo. Atílio parou e estacionou na lateral da estrada.

– Pessoal, daqui pra frente tem que seguir andando – comentou Atílio com um sorriso amigo no rosto.

Descemos todos e seguimos por mais alguns metros na estradinha escorregadia e pedregosa. Logo à frente, surgia a estátua, imponente e majestosa, do Cristo Redentor com seus braços abertos. Eu não cabia em mim de tanta alegria. Subimos vagarosamente por uma escada rolante, e logo nos encontramos aos pés da imensa escultura.

Um amplo espaço, com escadarias, abrigava inúmeros visitantes, todos felizes de estar ali procurando os melhores ângulos para suas fotografias. Estranhamente, observei que não possuíamos nenhuma câmera fotográfica. Restava me contentar em guardar tudo de memória para depois relatar à minha tia e a Janaína.

Olhei para o alto da estátua, queria ter uma visão completa do Cristo com seus braços abertos. Imaginei ali um imenso abraço ao verdadeiro Jesus.

Ficamos, por muito tempo, observando toda a cidade que jazia a muitos metros abaixo. Por um lado, a cidade se estendia até o horizonte e do outro lado, terminava onde começava o mar de azul profundo e seguia até o horizonte onde se confundia com o céu.

Atílio preferiu ficar aguardando no carro estacionado. Disse que tudo aquilo já não era nenhuma novidade para ele, pois vinha com muita frequência trazendo outros amigos.

Senti que já era hora de retornar e convidei os amigos para descermos. Todos concordaram e retomamos o caminho de volta.

Fernando me perguntou se eu gostaria de conhecer outros locais ali na floresta ou estava ansioso para voltar.

Eu, realmente, não tinha pressa nenhuma, pois havia combinado de voltar para casa somente após o desfile. Além de que o passeio estava sendo muito agradável e eu queria aproveitar o máximo possível daquela oportunidade.

Assim, passamos o restante da tarde perambulando pelas estradas da floresta. Atílio parecia conhecer mesmo todos os recantos maravilhosos daquele local. Além de lugares muito populares conhecidos pelos turistas, como a Vista Chinesa, a Mesa do Imperador, o Mirante Dona Marta e a Cascatinha, nos mostrou inúmeros outros lugares magníficos que, conforme nos confidenciou, só ele conhecia.

Atílio nos deixou exatamente no mesmo lugar em que nos apanhou – na pracinha do bairro. Despediu-se alegremente de todos nós com um amistoso abraço e, depois, entrou no seu belo automóvel amarelo e desapareceu na esquina da próxima rua.

A curiosidade de saber mais sobre Atílio me corroía o coração. Gostaria de fazer mil perguntas aos amigos sobre aquela pessoa tão generosa e magnífica e, sobretudo, misteriosa. Terminei, entretanto, sem perguntar nada. Preferi aguardar outra oportunidade, pois tinha certeza de que aquela não seria a última vez que nos encontraríamos.

Capitulo 9 – A Visita de Fernando

Sentei no mesmo banco da praça – já fizéramos dali o nosso point – o pacote contendo a minha fantasia continuava sempre debaixo de meu braço. Fiquei calado por alguns minutos pensando no que ocorrera em casa antes de sair. Certa angústia me passou pelo coração, e já estava disposto a despedir-me dos amigos e rumar para casa, quando Fernando se aproximou de mim e pôs a mão direita sobre meu ombro. Olhou-me sério e disse:

– Melhor não voltar para casa agora. Fica conosco até o momento do desfile e, então, retorna para casa. Nós três moramos aqui perto, você vem conosco e se troca em nosso apartamento e então, nós todos iremos te acompanhando ao desfile.

Olhei para ele com aparência de quem concordava, mas nem por isso me sentia totalmente tranquilo. Sentia uma enorme necessidade de saber o que havia acontecido em casa, mas relutava em voltar com receio de ser convencido pela minha tia a desistir do desfile. Já havia tentado telefonar diversas vezes, mas sem sucesso – recebia sempre sinal de linha ocupada. Possivelmente, havia algum defeito do aparelho telefônico.

Percebendo toda aquela ansiedade, Fernando me propôs ir, ele mesmo, até a casa de minha tia para informar que estávamos juntos e também saber o que havia ocorrido.

– Não se preocupe – disse Fernando me abraçando – vai dar tudo certo.

Atravessou a praça e seguiu em direção à casa de minha tia. Eu e os outros dois amigos ficamos aguardando sua volta.

A sala da casa estava fracamente iluminada. A luz provinha unicamente de um abajur que se usava para iluminar a imagem da Virgem de Fátima, de quem minha tia é devota.

Ela, pensativa, estava sentada ao lado da imagem. De momento a momento secava uma lágrima que lhe escorria dos olhos. O silêncio era total.

Janaína, vindo da cozinha, trazia uma xícara de chá, em uma bandejinha de prata, com calmante. Ela aceitou o chá sem desviar o olhar da Santa. Janaína afastou-se e sentou à mesa. Aguardava que minha tia, calmamente, tomasse o chá.

Neste momento, Janaína notou vindo da porta de entrada da casa uma figura humana, brilhante, que se aproximava dela.

Permaneceu com os olhos fixados na figura sem conseguir qualquer movimento que não fosse o de seguir a aparição com os olhos. Estava paralisada.

Fernando aproximou-se bem de Janaína. Ela observava a fisionomia de um jovem rapaz, de olhos claros e um suave sorriso, que transmitia confiança e paz. Sentiu-se imensamente tranquila e segura, e uma forte energia tomou conta de sua mente.

No silêncio que dominava o ambiente ouvia claramente, em seu cérebro, as palavras ditas por Fernando. Ela olhava firmemente para ele e percebia que os lábios não se moviam, mesmo assim, o ouvia perfeitamente.

– Eu venho em paz e trago notícia de Alaor. Ele está conosco e não sabe ainda de sua real situação. Isto vai acontecer no momento certo, mas ainda o estamos preparando para isto. Fale a todos que ele continua vivo entre nós, que está muito bem e tem a nossa proteção. Tranquilize a todos.

Breve partiremos para mais distante, mas Alaor ainda fará uma última visita a esta casa. Peço que, em suas preces, devotem somente amor e paz; que não haja sofrimentos, pois não existem motivos para lágrimas. Que Jesus esteja sempre com vocês. Adeus!

Janaína permanecia entorpecida enquanto via a figura brilhante afastar-se em direção à porta e, finalmente, desaparecer completamente.

Aos poucos voltou a sentir seu próprio corpo e, ainda perplexa pelo fato inusitado, olhou para a tia que continuava, tranquilamente, a olhar para a Virgem de Fátima e a tomar o seu chá.

Do outro lado da praça, sorridente, Fernando já vinha em nossa direção. Não suportando a aflição, levantei e fui encontrá-lo ainda a meio caminho. Queria logo saber como andavam as coisas em casa.

– Fica despreocupado – falou baixinho pra mim. Estão todos bem. Tudo está em paz e te desejaram um maravilhoso desfile. Janaína te mandou lembranças e te desejou sorte. Sua tia está tranquila, orava aos pés da Virgem de Fátima por você. Portanto, não há motivos para preocupações, o.k.?

A alegria encheu meu coração e eu me senti restabelecido. Quando Fernando mencionou a Virgem de Fátima, e que minha tia orava aos seus pés, por mim, não tive mais nenhuma dúvida sobre tudo que falava. Naquele exato momento, me senti transportado para a sala de casa e imaginei como tudo ali se passara.

Voltei com Fernando e nos juntamos ao Mário e Franco. Passamos ali, mais alguns minutos e, finalmente, Franco sugeriu que fossemos para o apartamento onde moravam. Todos nós concordamos e saímos da praça.

Capítulo 10 – O Apartamento

Era a primeira vez que eu iria ao apartamento deles, estava bastante curioso em conhecer o ambiente em que viviam aqueles três.

Atravessamos a rua que contornava a praça e entramos na primeira rua da esquina. Franco seguia um pouco à frente e nós o seguíamos, Mário ia ao meu lado e Fernando logo atrás.

A rua não era longa e parecia não ter saída, o seu final era um grande círculo que servia de retorno aos automóveis. No lado oposto havia um grande portão fechado que dava entrada a uma espécie de condomínio. Depois do portão, havia uma portaria. Percebendo nossa chegada, alguém acionou o portão permitindo nossa entrada.

Seguimos por uma alameda muito bem cuidada e ornamentada por jardins laterais. Logo à frente, uma pequena praça circular com um belo chafariz iluminado, ao centro, lançava filetes coloridos de água para o ar.

Haviam quatro blocos, separados por duas alamedas que se cruzavam perpendicularmente, tendo a pequena praça circular como centro.

Continuamos a andar pela alameda principal e viramos à esquerda ao chegar à pracinha.

O apartamento dos três amigos era o que ficava do lado esquerdo, na alameda secundária. Na verdade, era uma casa de estilo moderno. Uma varanda externa circundava toda a casa. Ao longo da varanda, algumas mesinhas com cadeiras e sobre cada uma delas um pequeno arranjo de flores.

Observei que a entrada da casa não possuía porta, ao invés, apenas um portal que dava para um corredor interno.

Eu, tudo observava com curiosidade. Nunca imaginei um lugar desses, tão tranquilo e organizado, ali pelas redondezas.

– Deve ser muito bom morar em um lugar assim – pensei comigo mesmo.

Franco, que pareceu ter lido meus pensamentos, comentou baixinho:

– Você gostou daqui?

Acenei afirmativamente com a cabeça. Parecia-me sacrilégio quebrar aquele silêncio com minhas palavras. Franco entendeu meu constrangimento e falou ainda mais baixinho:

– Bom saber!

Havia quatro portas ao longo do corredor, duas de cada lado. Ao apartamento dos três amigos, entrava-se pela primeira porta. Abriram rapidamente e entramos.

O apartamento era bastante simples, uma sala logo na entrada, com duas poltronas e uma mesinha de centro com um belo jarro de flores ao centro. Do outro lado, preso à parede toda pintada de branco, havia um aparelho de TV. No lado oposto, dois quartos e, ao centro, o banheiro. Percebi que não havia cozinha.

Fernando me chamou para me apresentar os cômodos do apartamento. Mostrou-me o primeiro quarto, onde havia duas camas.

– Aqui ficam o Franco e o Mário – disse apontando para as camas.

Entre as camas estavam duas pequenas escrivaninhas e, no lado oposto do quarto de frente para as camas, uma cômoda e sobre ela uma jarra de barro que, certamente continha água, pois notei copinhos em volta dela. Preso à parede, acima da cômoda, um magnífico quadro com a imagem de Jesus.

Depois, Fernando apresentou-me o pequeno banheiro e, em seguida, o outro quarto – semelhante ao primeiro em todos os detalhes.

– É aqui que eu fico – disse, e apontando para a cama à direita do Cristo continuou – esta é minha cama. Aquela outra será sua, por enquanto, e quando precisar.

Senti-me meio constrangido, mas ele continuou.

– Sempre que você precisar, é aqui que você ficará.

Olhou para mim e sorriu. Acho que percebeu em meu semblante todo meu constrangimento e se apressou em afirmar:

– Não fiques acanhado Alaor, eu estava mesmo precisando de uma boa companhia!

Entramos no quarto. Ele abriu a primeira gaveta da cômoda e disse:

– Guarda aqui a fantasia, mais tarde, quando formos ao desfile, você a pega novamente.

Fiz conforme sua sugestão e, em seguida, fomos ao encontro de Mário e Franco na sala. Os dois estavam sentados – um em cada poltrona. Eu sentei ao lado de Mário e Fernando junto ao Franco.

– Posso pegar um pouco de água? – perguntei.

– Claro que sim – Mário respondeu.

Levantei e fui até o quarto de Fernando, que agora já considerava como também sendo meu.

Ao ficar de frente para a imagem do Cristo, não resisti ao olhar de amor que parecia emanar dos Seus olhos em minha direção. Com as duas mãos sobre a jarra de barro gelada, baixei meus olhos e chorei bastante. Não sabia o porquê desta emoção tão grande, mas sentia que, enquanto as lágrimas desciam pelo meu rosto levavam junto uma grande dor que saia do meu coração. Depois, senti um grande alívio e uma imensa paz pareceu dominar todo meu ser. Olhei novamente para a imagem que, agora, parecia sorrir para mim e eu também sorri para Ele. Peguei a água e saí daquele quarto muito diferente do Alaor que ali entrara há poucos minutos.

Os três amigos me olharam em silêncio. Não disseram nenhuma palavra, nem fizeram nenhum comentário estranhamente engraçado.

Sentei novamente ao lado de Mário e comecei a beber a água. Devagarzinho, sorvia cada gole. Os amigos me observavam em silêncio – pareciam aguardar alguma avaliação.

Realmente, notei estranha leveza naquela água. Eu não consegui senti-la na boca, nem na garganta, nada! Era muitíssimo leve e fluídica. Parei de bebê-la e olhei para dentro do copo para verificar se havia mesmo alguma coisa ali. A água estava ali, pura e cristalina.

– De onde vem esta água? – resolvi perguntar. Jamais provei uma água assim tão boa!

– Do céu! – respondeu rapidamente o Franco, como se já soubesse o que eu perguntaria.

Foi o suficiente para os três rolarem de rir – menos eu, que não entendi o motivo da pilhéria.

– Toda água vem do céu, e esta não poderia ser diferente – falou Franco em tom sério.

Os três haviam parado de rir e, agora, me olhavam sérios, aguardando ouvir o que eu pensava a respeito do que Franco havia dito a respeito da origem da água. Senti-me mais confiante e respondi categoricamente:

– Sim, claro, do céu!

Os três me olharam comovidos e, em seguida, rolaram de tanto rir. Menos eu!

Capítulo 11 – Na Avenida

Finalmente, chegou o momento de ir para a Avenida. Vesti a fantasia de palhaço por cima da roupa comum. Os três amigos me ajudaram com a pintura do rosto e as alegorias que compunham toda a vestimenta. Faziam o trabalho com bastante alegria e, de vez enquanto, saia uma piadinha e riam muito. Por fim, estava pronto!

Saímos do condomínio e rumamos para a praça. Para minha surpresa, lá estava o Atílio, com seu automóvel amarelo. Logo que nos viu saltou do carro e veio ao nosso encontro, abraçando-nos e cumprimentando a todos. Desta vez, eu fui o pivô das brincadeiras.

Todos os comentários, estranhamente engraçados, eram dirigidos a mim e à minha roupa de palhaço. Eu já estava acostumando ao clima de alegria constante, e compartilhei o bom humor sorrindo muito, mesmo que em alguns momentos não entendesse o motivo da graça.

Chegamos! O local estava muito iluminado e dominado pela multidão. Atílio conseguiu, milagrosamente, um local para estacionar. Disse que ficaria ali até que meu desfile terminasse para que voltássemos para casa em segurança. Eu me senti muito feliz e agradecido pela enorme cortesia de Atílio e, não resistindo à emoção, abracei-o fortemente e agradeci pelo excessivo favor. Ele me olhou, também emocionado, e falou baixinho, ao meu ouvido:

– Quem sabe, um dia, você também fará algo por mim!

Abraçamo-nos novamente e me despedi dos amigos, seguindo sozinho para a área de concentração.

No meio daquela multidão me sentia solitário. Olhei em volta, procurando algum rosto conhecido, algum amigo em comum que estivesse na mesma ala dos palhaços – não conseguia encontrar quem quer que fosse! Ocorreu-me estar em uma escola diferente, mas lembrei que o horário estava correto além das diversas alegorias que já conhecia bem.

Continuei a busca e, finalmente, vi o Ferreirinha recostado a um enorme carro alegórico.

Aproximei-me dele com alegria por haver encontrado alguém conhecido.

– Olá Ferreirinha, tudo bem? – falei empolgado.

Ele não respondeu, mas olhou bem para mim. Seu semblante era de tristeza, o que não combinava com o tradicional bom humor que sempre carregava.

– Olá Ferreirinha, sou eu, o Alaor, tudo bem? – insisti intrigado.

Ele continuou a olhar-me resoluto. Depois, abaixou a cabeça, esfregou fortemente os olhos e foi para debaixo da enorme alegoria.

Eu o perdi de vista. Fiquei ali, parado, tentando entender o motivo de sua atitude, afinal, nós éramos bons amigos! Pensei na possibilidade dele estar drogado, sabia que essa possibilidade era bem real. Muitas vezes conversamos sobre isto e eu sempre lhe dava conselhos e o incentivava a não se deixar levar por este caminho de decadência e sofrimento. Ele sempre me agradecia e prometia que lembraria dos meus conselhos.

Mas, como poderia acreditar em alguém que logo após estas promessas saía, rapidamente, em outra direção, cantando o último enredo da escola e dançando com gingado de malandro?

Saí dali um tanto entristecido pelo comportamento do meu amigo, mas convicto de que o motivo não seria a droga – haveria de ser outro.

Logo adiante, vi a ala dos palhaços. Estavam todos agrupados, dançando e cantando alegremente. Aproximei-me e juntei ao grupo. Ninguém prestava atenção em mim, o que era natural naquela situação. Tranquilizei-me e procurei fazer o meu papel.

Capítulo 12 – O Desfile

O tão esperado momento havia chegado. A noite parecia não existir naquele ambiente todo iluminado e que agora resplandecia a luz de fogos de artifícios.

Pessoas aglomeradas, aguardavam com grande entusiasmo, o momento de iniciar o desfile. Um barulho ensurdecedor de fogos, gritos e batidas empurraram-me para o meio da multidão.

Não haveria volta, seguir com todos era a única opção. A insegurança me abraçou por algum momento, depois, me deixei levar sem reação. Repetia o que faziam os outros.

Não ousava pensar nem raciocinar. Apenas seguia em frente, empurrado pela energia e fantasia de estar ali, comungando ser o que não era. O brilho das roupas refletia uma alegria insana. Todos sorriam e cantavam como se estivessem em um verdadeiro combate – alegria versus tristeza, mesmo que realmente ambas não existissem. Eu fora ali jogado, iludido por falsos argumentos que já não tinham nenhuma importância. Não dava pra voltar atrás nas minhas decisões. Teria que seguir, e tentar dar de mim o melhor possível. Os incentivos que me chegavam exigiam ainda mais disposição e empenho. Era como um empurrão, ladeira acima, quando o fôlego já faz falta. Naquela situação, me sentia o mais frágil de todos. A incerteza de chegar até o final da jornada, onde morreria a fantasia e ressuscitaria a realidade, a minha realidade, crescia a cada passo. Olhava para os lados, para o alto, e procurava ser feliz. Afinal, eu estava ali para isso – ser feliz!

Defender um enredo, a alegoria e a fantasia de todos que seguiam comigo.

Sentia anestesiado todo o corpo. A mente, embotada, impedia o pensar. Nem passado nem futuro possuíam realidade. Só o momento era real.

O barulho ensurdecedor de gritos, cantos e batidas formavam um corpo só, sem distinção, e me envolvia por todos os lados e ao mesmo tempo, me empurrava para frente. Não sentia os pés no chão duro do asfalto, não percebia os passos nem o suor que banhava o corpo. Via-me como parte de uma massa luminosa a espraiar-se ao longo do trajeto.

Assim permaneceu até que o som de uma bateria ainda fraca e em desarmonia aumentava de intensidade. Agora, percebendo os pés e o chão duro, notei ter passado por toda avenida. Estava no final daquela fantasia insana, a apoteose do sofrimento disfarçado.

Não saberia dizer se fiz bem ou mal todo o trajeto, mas, agora a euforia era em busca de minha realidade. Ela, certamente, me esperava de braços abertos no final da jornada.

Quando chegamos à área de dispersão o grupo debandou desordenadamente e com incrível velocidade. Todos corriam buscando o melhor lugar para apreciar o restante da escola que ainda passava pela avenida. Eu não participei daquela correria, pois sentia-me estranhamente exausto. Tudo aquilo que eu deixaria para trás e que fora um sonho para mim, agora mais parecia um pesadelo do qual eu saí naquele instante.

Queria afastar-me dali urgentemente. Não conseguia raciocinar claramente e um mal-estar se apossou de mim. Pensei por um momento que desmaiaria ali mesmo. Procurei um lugar para sentar e respirar profundamente.

A aflição tomava conta de mim e eu olhava para os lados procurando socorro. Distingui vultos que se aproximavam. Levantaram-me apoiado pelos braços enquanto falavam coisas que eu não conseguia entender com perfeição. Senti grande leveza, como se flutuasse levado por aquelas pessoas. Depois, não percebi mais nada.

Capítulo 13 – Uma Nova Realidade

Quando me recuperei, já estava no apartamento dos três amigos, deitado na cama ofertada por Fernando. Eles, de pé ao meu lado, me observavam com ar sério. Tentei levantar-me rapidamente tomado pelo susto – eu estava envergonhado com tudo aquilo.

Fernando pôs as mãos sobre mim e falou:

– Não precisas levantar agora, procura te recuperar primeiro. Vais precisar de toda energia para enfrentar o que vem pela frente.

Não entendi o que ele quis dizer, mas atendi ao pedido e voltei a relaxar sobre a cama.

Eles continuavam à minha volta, Mário e Franco sentaram-se nas cadeirinhas e Fernando à beirada da cama.

Mário levantou-se e dirigiu-se para a cômoda onde havia a jarra com água. Eu o segui com o olhar e aproveitei para observar o retrato do Cristo. Fitei os olhos da imagem de onde parecia fluir uma luz magnífica, que envolvia todo meu corpo e acalmava meu coração. Dos Seus lábios, um leve sorriso me transmitia paz e alegria. Era impossível fixar o olhar sobre aquela imagem por muito tempo. Uma emoção crescente forçava-me à reverência e às lágrimas de felicidade.

Os três, agora, observavam-me em silêncio. Tinham no rosto um ar de seriedade que me transmitia tranquilidade e segurança. A porta do quarto mantinha-se aberta e, através dela, podia sentir uma levíssima brisa e uma luz suave que preenchia todo o quarto. Procurei saber a hora do dia e Fernando me informou ser aproximadamente meio-dia.

– Tenho que voltar para casa! – falei assustado pelo horário. Levantei apressado procurando me recompor.

– Sim, claro! – afirmou Fernando. Mas, antes de você voltar, gostaríamos que nos acompanhasse na refeição. Já está pronta e nos esperando lá na varanda.

Imediatamente aceitei o convite, pois de repente comecei a sentir muita fome. Saímos do apartamento em direção à varanda que circundava toda a casa. Havia diversas mesinhas, ao longo, com cadeirinhas ao redor. Somente uma estava posta à nossa espera. Sentamo-nos os quatro e Franco, de olhos fechados e mãos postas, foi logo fazendo uma prece de agradecimento. Depois, aproveitamos uma deliciosa sopa.

Uma senhora simpática e sorridente apareceu, vinda da parte de trás da casa, no final da varanda. Aproximou-se, trazendo uma jarra com água fresca e colocou-a sobre o centro da mesa. Em seguida, do mesmo modo como havia aparecido, retornou e desapareceu no final da varanda.

Refeito em minhas energias, também retornou meu entusiasmo. Conversava alegremente com meus novos amigos e falávamos sobre meu desfile. Todos aproveitaram para expressar suas opiniões, que geralmente terminava em sorrisos e gracejos. Eu já estava acostumado com o temperamento dos três e compartilhei as chacotas.

Ao final daquele almoço, levantamos e retornamos ao apartamento. Fernando, ao meu lado, abraçou-me sobre os ombros e falou:

– Antes de voltares à tua casa precisamos te mostrar algo muito importante, aceitas?

Olhei para ele com expressão de curiosidade. Não estava preocupado, apenas curioso com a repentina decisão de Fernando. Ele me respondeu com um sorriso apenas e apertando meus ombros, seguimos os quatro de volta à sala.

Fernando dirigiu-me e me fez sentar no sofá que ficava em frente da televisão, Mário e Franco sentaram no sofá ao lado. Fernando fez um gesto de silêncio a todos nós e ligou o aparelho, voltou rapidamente e sentou-se ao meu lado.

A princípio, não percebi nenhuma imagem na TV, nem tampouco nenhum som – o telão permanecia escuro. Procurei fixar minha atenção no aparelho tentando vislumbrar alguma coisa. Aos poucos, comecei a perceber algo – uma imagem parecia mover-se no ambiente escuro. Cada vez mais nítido, constatei perfeitamente alguém que andava, apressadamente, por ruas escuras. Agora, já podia também ouvir o som dos passos apressados. Minha atenção aumentou quando comecei a reconhecer aquele ambiente. Não me contive, levantei do sofá e me aproximei do telão. Tudo me pareceu muito mais claro e real. Tive a sensação de que eu, realmente, estava dentro daquela cena. Tudo era extremamente real, minha respiração era ofegante e minha atenção redobrava para que não tropeçasse em algum obstáculo. Ouvi tiros bem próximo e me pus a correr de verdade. Meus pensamentos se misturavam, oscilando entre a realidade daquele momento e o mistério que me fazia revivê-lo. Eu tinha plena consciência de que tudo aquilo já havia acontecido, entretanto, eu estava ali novamente.

Procurei visualizar a sala, os três amigos, o aparelho de TV, mas a única coisa que percebia era o ambiente mal iluminado e a viela escorregadia, além da respiração ofegante e os tiros que soavam bem próximos.

Lembrei da escadaria logo adiante e já podia vê-la. Apressei-me mais ainda pretendendo por fim àquele pesadelo. Ao pisar o primeiro degrau, novamente senti o empurrão nas costas e eu rolei pelos degraus abaixo. Levantei rápido e olhei para o alto da escadaria. Lá estava o homem caído! Na mesma posição em que o vira da primeira vez. Pensei logo em acudi-lo, e foi o que fiz. Vencendo o medo de ser alvo do tiroteio que continuava mais intenso, levantei e fui à direção do homem.

Ele estava inerte, caído de frente e com o rosto virado para o outro lado. Uma mancha de sangue espalhava-se sob o corpo. Percebi também, que ele prendia firmemente, um pacote sob seus braços. Eu tremia fortemente todo o corpo, mesmo assim continuei a analisar, na obscuridade, aquele homem à minha frente. Procurei ver o rosto que, protegido por uma sombra, não permitia ver com clareza sua fisionomia. Aproximei-me mais ainda e, agora, já o reconhecia com perfeição. Fiquei parado, olhando aquele rosto.

Eu me sentia anestesiado e horrorizado, eu era aquele homem! Não conseguia compreender, mas eu estava ali caído e sangrando.

Com toda energia tentei levantá-lo e retirá-lo dali. Eu queria, a todo custo protegê-lo. Por mais que tentasse, era inútil, nada conseguia. Desesperado, passei a gritar para que se levantasse por si. Naquele momento de aflição, além da dor e da agonia de me sentir totalmente incompetente, aos meus pensamentos misturava-se a imagem de minha tia, minha mãe, Janaína. Preocupava-me a aflição delas. Como justificar tudo que estava acontecendo. Meu desalento aumentava a cada instante, quando percebia minha total incapacidade em fazer qualquer coisa. Finalmente, em um gesto de total ansiedade, levantei e lancei-me sobre o corpo inerte na intenção de protegê-lo.

Senti um forte puxão em meu braço e vi, ao meu lado, o amigo Fernando com o rosto banhado em lágrimas, me arrebatando daquela última cena.

Tentando resistir ao resgate de Fernando, senti-me novamente no meio da sala do apartamento. Enquanto Fernando me prendia firmemente pelos braços, Mário e Franco oravam em silêncio.

Fernando levou-me a sentar no sofá e ficou ao meu lado, sempre segurando firmemente os meus braços.

Aos poucos, fui recuperando a lucidez e, finalmente, respirei fundo e perguntei:

– O que aconteceu?

Não houve resposta à minha pergunta, eles permaneciam olhando-me em silêncio. Porém, aquele silêncio foi a melhor resposta. Percebi, com clareza, minha atual situação. Olhei para cada um deles e disse-lhes:

– Acho que entendi tudo!

Repeti, diversas vezes, a mesma frase. Eles só me olhavam sérios. Levantei e andei em volta da sala, pensativo, sempre repetindo a mesma frase.

– Acho que entendi tudo! Quem são vocês, que lugar é este, o Atílio – meu amigo Atílio – também sei quem ele é! Agora percebi tudo, não precisam mais esconder nada de mim!

Comecei a rir nervosamente. Enquanto sorria as lágrimas desciam em cascata. Não parava de rir. Parecia invulgar, mas aquela era a oportunidade de rolar de rir, enquanto eles permaneciam calados e sérios.

Finalmente, acabou a graça e comecei a chorar baixinho, para mim mesmo. Um imenso desalento se apossou de mim – sentia uma forte dor no coração.

Meus pensamentos se dirigiam à minha casa. Minha tia e Janaína, como estariam naquele momento? Recordei também os amigos da escola e do trabalho – senti saudade de todos enquanto me passava pela memória todos os momentos alegres que houvéssemos compartilhado. Lutei muito contra a vontade de sair dali correndo e voltar à casa da tia. Um desejo muito grande de voltar àquela casa me dominou. Fernando se aproximou de mim e disse:

– Você vai lá! Nós te acompanharemos até a praça e lá, aguardaremos teu retorno. Agradeci a Fernando e, todos juntos, rumamos em direção à praça.

Capítulo 14 – A Última Visita

Ao sair pelo portão do condomínio, Franco me chamou a atenção para que eu notasse a modificação em meu novo modo de ver as coisas. Realmente, passei a observar um estranho brilho em tudo. Havia uma névoa de luz contornando todos os objetos, as cores se multiplicaram e tudo parecia ter vida própria.

Ao chegarmos à praça, ela me pareceu bem maior, mais ampla em todos os sentidos. O número de pessoas que transitavam, para lá e para cá, era muito maior do que o de costume. Percebi crianças que corriam entre os bancos, brincando alegremente. Eu também, estava singularmente feliz com a nova visão e aparência das pessoas, dos objetos e de tudo mais.

Chegamos ao nosso banco favorito, onde sempre sentávamos para observar o ambiente e conversar. Logo revelei aos amigos o meu desejo de chegar à casa de minha tia. Os três concordaram entusiasmados e comentaram que eu teria surpresas ao chegar lá.

Franco sugeriu que eu fosse tranquilo e garantiu que estariam ali, à minha espera, quando eu retornasse.

– Eu trouxe sua fantasia – disse Mário, mostrando-me um pacote. Vamos nos livrar dela quando você voltar.

– Ok, até logo então!

– Até! – responderam os três.

Ao aproximar-me da porta de casa, notei que havia três senhores de pé, que pareciam estar de vigília. Logo reconheci um deles – era meu tio Alfredo. Sua fisionomia era a mesma de muitos anos atrás, quando o conheci ainda criança, lá na minha cidade de origem.

Ele se aproximou de mim com um sorriso amigo e falou-me:

– Olá Alaor, nós o esperávamos! Venha, vamos entrar e você poderá ver sua mãe e suas tias.

Puxou-me delicadamente pelos ombros e entramos em casa enquanto os outros dois senhores permaneceram onde estavam. Logo vi as três irmãs em oração aos pés da Virgem de Fátima. Minha mãe, de joelhos, segurava um rosário. Minha tia, ao seu lado, a amparava com carinhos. Minha outra tia Maria da Conceição, a irmã do meio, que eu não conhecia a fisionomia, mas que naquele momento sabia que era ela, estava de pé logo atrás das duas irmãs. Também orava à Virgem e de suas mãos fluía luz em direção às irmãs.

Fixei minha observação sobre minha mãe. Reparei nos finíssimos raios de luz, multicolores, que se projetavam em minha direção. Eu os percebia e absorvia como uma energia carregada de inúmeros sentimentos. Alguns me causavam sensação de dor e sofrimentos, outros, porém, me enchiam de amor e paz. Pensei em chegar bem perto e abraçá-la, mas uma força ininteligível me impediu e me manteve estático. Então, aprendi naquele momento, a processar aquela energia que estava recebendo dela e devolver em forma de sentimento. Formava sentimento de amor, de paz, de gratidão e resignação. Ela pareceu receber minha mensagem em forma de luz que envolvia todo seu corpo. Senti, de volta, sentimentos de fé e esperança. Desejei que seu coração se enchesse de paz e assim aconteceu. Seus soluços se calaram e notei em seu semblante uma linda aparência de amor e fé.

No outro lado da sala, escondida pela sombra, estava Janaína. Olhava firmemente para mim e dos seus lábios vi surgir um sorriso fraternal. Ela sabia que eu estava ali e, em seguida, me provou que eu estava certo. Janaína segurava uma linda rosa nas mãos. Delicadamente, a atirou em minha direção. Instintivamente busquei segurá-la, mas a flor caiu aos meus pés. Entretanto, vi em minhas mãos outra rosa igual que brilhava como uma estrela. Quis retribuir a Janaína aquele gesto carinhoso, então, beijei a rosa e a lancei em sua direção. Ao atingi-la, a rosa desdobrou-se em luz banhando todo o corpo de Janaína, iluminando-o mais ainda em belas cores. Ela recebeu aquela energia e cerrou os olhos permanecendo em êxtase.

Meu tio Alfredo se aproximou de mim e falou:

– Vamos Alaor, é hora de partir!

Atendi ao seu pedido e saímos vagarosamente da sala. Depois, me despedi dele e dos cavalheiros que montavam guarda à porta de casa e regressei em direção à praça.

Capítulo 15 – Caroço e a Fantasia

Franco, Mário e Fernando, como de costume, me aguardavam. De onde eu estava – do outro lado da praça – tinha uma visão magnífica de todo local. Ela, agora, me parecia mais bem cuidada e mais ampla em todas as direções. O movimento de pessoas que por ela transitavam, ou se agrupavam, dava a impressão de dia de festividade.

Juntei-me ao grupo de amigos transmitindo uma sensação de felicidade imediatamente notada e comentada por todos.

Eu observava tudo, emocionado por perceber a beleza e o esplendor de vida que preenchia o ambiente.

Mário me entregou um pacote, onde eu guardava a fantasia de palhaço.

– Que pretendes fazer com isto? – perguntou-me.

Segurei o pacote com ambas as mãos e coloquei-o sobre o banco. Desempacotei a fantasia e a estendi sobre o gramado que ficava ao lado do banco.

Ficamos os quatro, ali, olhando fixamente para aquela fantasia. Eu não sabia o que fazer com ela, mas certamente não a desejava mais. Olhei em volta e notei que havia diversos coletores de lixo espalhados pela praça. Escolhi o mais próximo e decidi ali depositar aquela vestimenta que já não me interessava mais.

Franco me chamou a atenção para o Caroço, que chegava à praça naquele instante. Ele gesticulava, discutindo com dois homens que o ladeavam. Deviam ser velhos conhecidos e companheiros de aventura devido à intimidade com que se tratavam. Um deles o abraçava pelos ombros e estava sempre falando ao seu ouvido; o outro, ria muito e dava tapinhas às suas costas. Atravessaram a rua e sentaram-se em um banco que ficava sob a sombra de uma árvore. Sempre falando alto, Caroço chamava a atenção dos que passavam.

– Observe Alaor – falou Franco – note que os amigos do Caroço somente ele os vê. São velhos amigos que o seguem desde sua vida anterior, quando se chamava Messias.

Era um rapaz de boa família e que nasceu com o dom da mediunidade. Toda sua família era espiritualista, mas a ele foi dada uma clarividência especial. Sua missão seria ajudar aos irmãos consternados pela dor da perda de entes queridos, provando-lhes que a vida continua para além das fronteiras da morte do corpo físico.

Entretanto, Messias, envaidecido pelo seu dom, passou a usá-lo em proveito próprio. Realizava eventos onde mostrava seus poderes e cobrava muito bem pelo trabalho realizado. Sua família não aceitava o que ele fazia e sempre o repreendia.

Irritado com tantas repreensões, Messias afastou-se da família e passou a viver com dois amigos que passaram a assessorá-lo. Tornaram-se muito conhecidos e eram convidados em outras cidades para realizar o espetáculo. Passaram alguns anos juntos explorando a capacidade de vidência de Messias. Em uma de suas viagens, foram vítimas de um acidente de automóvel e os três vieram a falecer.

No plano espiritual, Messias tomou ciência dos seus erros e, amparado por amigos verdadeiros, resolveu retornar e tentar novamente realizar sua missão. Os dois amigos assessores não se deram conta da nova realidade e continuam, agora, a segui-lo influenciando as ideias e transformando sua vida no que você está vendo.

– Quer dizer que ele fracassou novamente? – perguntei.

– Ainda não – continuou Franco – os seus amigos espirituais nunca o abandonaram. Está muito próximo o dia em que o auxílio lhe chegará e sua vida será mudada.

Permaneci pensativo no que me falara o amigo Franco, observando Caroço em animada conversa com seus dois amigos. Pensava, tentando imaginar como poderia se dar a tal mudança.

Retornei minha atenção para a roupa estendida na grama. Levantei e a recolhi, dobrando-a em partes. Segui em direção à primeira lixeira disponível na praça.

Enquanto andava, notei que Caroço e os dois amigos passaram a me observar.

Prossegui no meu intento e depositei a fantasia no coletor de lixo. Voltei para o banco e passamos a observar o comportamento de Caroço.

Ele levantou seguido pelos dois amigos e, disfarçadamente, se aproximou da lixeira. Transparecia nele uma enorme curiosidade. Os dois assessores o incentivavam a pegar o objeto e logo conseguiram o que desejavam. Ele desdobrou a fantasia devagar e depois a levantou para ter uma visão completa da mesma. Transparecia-lhe expressão de grande contentamento e, sempre incentivado pelos caudatários, resolveu vesti-la ali mesmo.

Motivo de risos e zombarias, os dois obsessores pulavam e dançavam à sua volta. Caroço os imitava e, logo, se via cercado por um grupo de pessoas dispostas a se divertirem às suas custas. O circo estava realmente formado e, no picadeiro um único palhaço, o pobre Caroço.

Ficamos de longe, observando aquele espetáculo. Fernando, constrangido, falou a todos nós:

– Somente ele, pobre coitado, consegue ver a fantasia.

Capítulo 16 – A Viagem Final

Já era quase final da tarde de domingo. O céu parecia claro e poucas nuvens brancas contrastavam com o azul-celeste. Um belo final de tarde! – pensei. Foi em um domingo bem diferente que cheguei ao Rio de Janeiro. Uma alegre lembrança ocupou meus pensamentos. Respirei profundamente e inebriei-me de prazerosa brisa momentânea.

– Nossa carona está chegando! – disse Mário sorridente, apontando para o centro da praça.

Um foco de luz se adensava no local apontado por Mário, sobre uma região gramada que, normalmente, estava protegida dos transeuntes. Levantamos e ficamos observando surgir os contornos de um veículo ovalado e semitransparente que pairava a alguns centímetros do solo gramado. No seu entorno, forte luz esbranquiçada criava um campo com terminações multicolores e faiscantes. Vimos então, que do seu interior surgia elegante figura humana que nos acenava afetuosamente. Logo reconheci aquela cabeleira branca esvoaçante – era meu querido amigo Atílio!

Motivados por impulso irresistível nos dirigimos ao encontro daquela luz. Fomos recebidos por Atílio que nos abraçava a cada um e nos encaminhava ao interior do estranho veículo.

Parecia uma abóbada iluminada e com contornos circulares. O piso era transparente e sobre ele uma série de poltronas aconchegantes que acompanhavam o mesmo formato. Instintivamente, procurei uma que estava próxima ao que poderia ser uma janela e me pus a observar a pracinha, justamente onde se aglomeravam os assistentes do palhaço Caroço, que continuava o seu espetáculo aplaudido pela multidão que o cercava.

Meus três amigos sentaram-se junto a mim. Todos estavam possuídos de incontrolável alegria somada a extrema sensação de paz.

Atílio ficou de pé à nossa frente e anunciou nossa partida imediata. Sentou-se em uma poltrona que parecia especialmente dedicada a ele, e sendo o condutor iniciou a partida.

Eu olhava para fora me despedindo da pequena praça e das suas memórias. A intensidade luminosa da nave ofuscou todo o ambiente exterior impedindo-me de qualquer visão que não fosse o seu próprio interior. Não houve nenhum ruído, nenhum movimento, mas algo me fazia segurar com firmeza o braço da poltrona. Os três amigos, parecendo bem mais experientes que eu, me transmitiam tranquilidade.

Permaneci observando o exterior, mesmo sem nada ver, na esperança de que algo acontecesse. A luz exterior começou a diminuir de intensidade e deixou-me vislumbrar alguma coisa que entendi como sendo um pátio – um enorme pátio ajardinado.

Atílio levantou e aproximou-se de nós. Com o mesmo sorriso amigo de sempre anunciou:

– Chegamos!

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