A RELEVÂNCIA DA ESCRITA PARA OS ESCRITORES ESPÍRITAS


O interesse em refletir a respeito da importância da escrita para os escritores espíritas
surgiu durante as reuniões da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás.

Especificamente, por sugestão da Presidente, Dna Mércia Aguiar - dedicada escritora. É
provável que a motivação emergiu da necessidade de se alinhar os pensamentos daqueles que
fazem uso da pena com o objetivo de levar a mensagem do Cristo de maneira adequada.
Importante lembrar que o escritor é uma categoria profissional da área das artes e,
segundo Ferreira (2010): é aquele que escreve. Escrever tem origem do Latim scriptum,
particípio passado de scribere, “escrever”. Esse verbo latino também originou a nossa palavra
“escritura” e “escrever”. Interessante que escritor também tem origem do latim strictus,
“apertado, restrito, preciso, rigoroso”. Já autor vem do Latim auctor, “o que aumenta,
fundador, mestre, líder”, literalmente “o que faz crescer”, de auctus, particípio passado de
augere, “aumentar”.
Nesse sentido, para ser um escritor é necessário ser rigoroso, mas também ter a
capacidade de aumentar, ampliar, fundar, ou seja, criar algo capaz de liderar (mentes). Afinal,
quem escreve o faz para alguém.
É exatamente nesse aspecto que essa reflexão se aterá: a preocupação com o rigor de
quem tem a responsabilidade de escrever e utilizar como argumentos a doutrina espírita.
O problema é que, em um mundo de provas e expiações, nem sempre o espírito possui
cabedal de conhecimentos suficiente para liderar outras mentes. Mais que isso, nem sempre é
provido de moral satisfatória para indicar modelos capazes de formar, reformar, conformar ou
mesmo transformar. Por outro lado, há os que, mesmo cientes de suas imperfeições, anseiam
por colaborarem na divulgação da Boa Nova, por meio do Consolador prometido. Diante
disso, qual a importância da escrita para os escritores espíritas? Que aspectos devem ser
levados em consideração ao se escrever uma obra cujo público pretende acelerar seu processo
evolutivo por meio da leitura edificante?
Acredita-se que o escritor espírita deva ser, acima de tudo, um estudioso. Também
deve ser disciplinado, bem intencionado, fiel às palavras do mestre Jesus, adaptado aos
ensinos dos espíritos (mediados por Kardec) e sintonizado com a espiritualidade maior. No
entanto, ao se analisar as obras contemporâneas, nem sempre tais virtudes são contempladas.
Há que se ressaltar que o livro é uma mercadoria como outra qualquer e, como tal, gera lucro
se agradar a uma significativa quantidade de clientes. Não importando, nesse caso, com a
qualidade da informação veiculada, mas com a vaidade do escritor ou médium. Além disso,
correm o risco, não de macularem os princípios espíritas, porque estes são inabaláveis, mas de
conduzir almas frágeis ao abismo da confusão e descrença.
Em tais situações, não temos a mesma autoridade de Jesus que expulsou os vendilhões
do templo com um chicote, mas podemos evitar que textos conflitantes com a doutrina façam
parte de nosso culto ou de nossas estantes.
Preocupados com a qualidade da literatura espírita, as academias, as editoras, as
livrarias e os clubes de livros são rigorosos na seleção das obras a serem adquiridas e
adotadas. As casas espíritas cuidam para que as obras básicas da doutrina espírita sejam
estudadas constantemente e, como obras complementares, as respeitáveis obras de autores
clássicos, tais como aquelas monumentais obras de pesquisadores, cujas pesquisas auxiliaram
na consolidação e sequencia histórica da Doutrina codificada por Allan Kardec, dentre os
quais: Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano e Camille Flammarion.
No Brasil, a literatura profícua é encontrada em autores/médius brasileiros tais como:
Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Carlos Torres Pastorino, Chico Xavier, Divaldo Franco,
Dora Incontri, Guillon Ribeiro, Hermínio Miranda, João Nunes Maia, Richard Simonetti,
Roger Bottini, Mércia Aguiar e o estudioso do Cristo – Emídio Silva Falcão Brasileiro. A listaé longa e, para não ser injusta, pode ser encontrada em página pública da internet - Wikipédia:
escritores espíritas do Brasil.
A falta de uma análise científica detalhada e profunda impede-nos de listar o contrário,
ou seja, citar aqui os autores que desencaminham os leitores da senda do Evangelho ou que
escrevem para um grupo que, tal como moscas no esterco, se compraz em rodear mazelas. Há
que citar as obras repletas de xingamentos, exemplos degradantes, linguagem agressiva e
vulgar, centralidade em personagens deprimentes que baixam o tônus vibracional do espírito,
que em vez de dissipar as trevas, atraem-nas. Em vez de iluminar os caminhos com
ensinamentos grandiosos, que abrem os olhos aos cegos, mantém o leitor por volumosas
páginas de lama e degradação mental.
O contrário também existe: a literatura considerada “água com açúcar”. Mas não nos
apressemos em julgar as obras que aí estão. O preconceito pode impedir que livros sem
profundidade sejam extremamente úteis para os que começam na jornada espírita. É provável
que o leigo ou iniciante ainda não tenha condições de suportar uma literatura profunda a
respeito da doutrina e deixe de receber as benesses do consolador. Lembremos que, para cada
nível espiritual há uma instrução adequada. O amadurecimento gerará a busca por literatura
mais aprofundada.
Diante disso, recomenda-se o ensinamento de Emmanuel, por meio da psicografia de
Chico Xavier “A maior caridade que podemos fazer pela Doutrina Espírita é a sua própria
divulgação”. Uma das formas mais utilizadas para essa divulgação é o livro.
A alma de um livro é, também, um pouco da alma de quem o escreve. É uma atividade
espiritual e, como tal, materializa-se o que se meditou. A mente humana é capaz de meditar
constantemente e, ao contrário do que se pensa, pensar muito não enlouquece. Mas depende
do que se pensa. Um pequeno aborrecimento pela manhã é capaz de ocupar o espaço mental
durante um dia todo. Isso significa que meditar no bem, como se medita no mal, também pode
ocupar a mente durante dias. Por isso é necessário que o aspirante a escritor tenha, em sua
ética, a intenção verdadeira – que é levar a verdade.
A vantagem da doutrina espírita é que se constitui de ciência, religião e filosofia. A
Ciência pertence ao rol do conhecimento intelectual, porém busca conhecer e demonstrar a
causa dos fenômenos, por meio de evidências. Já a filosofia é um conhecimento racional,
vinculado ao mundo, mas não é verificável, apesar de tentar explicar o mundo por meio de
uma reflexão crítica sobre os princípios e fundamentos das coisas. Na busca por respostas não
resolvidas pela ciência ou pela fisolofia, a fé humana desenvolveu o conhecimento religioso,
aquele que parte da fé, isto é, não é passível de verificação, nem exige evidências
laboratoriais.
Essa tríade fornece ao escritor espírita um vasto campo para produzir livros voltados
para os modos como o sujeito lida com a realidade.
No campo da filosofia e da religião, a literatura espírita avançou significativamente.
As vagas para os escritores espíritas com gosto e coragem para a literatura científica ainda se
encontra restrita às minguadas monografias de graduação, as raras dissertações de mestrado e
as raríssimas teses de doutorado. A saber: as teses doutorais de Emídio Brasileiro a respeito da
Justiça Quântica, os estudos da Neurociência de Anete Guimarães e as Ciências das Religiões,
tese doutor de nossa autoria. Confesso que é necessário elaborar um estudo mais aprofundado
sobre as teses espíritas da atualidade.
Escrever não é um ato recente. Há uma diferença entre o primeiro livro da história e o
primeiro livro impresso. Feijó (2016) afirma que o primeiro livro do mundo foram os poemas
sobre um rei da Mosopotâmia, escrito em cerâmica e pedra. Já o primeiro livro impresso foi a
Bíblia, em 1455, pelo alemão Gutemberg. Nesse meio tempo, os livros eram escritos à mão,
em pergaminhos ou papiros e guardados em forma de rolos. No Brasil, em 1810, o primeiro
livro impresso foi Marília de Dirceu, de Tomás Gonzaga.Desde então, tanto na literatura comum, quanto na escrita espírita, os gêneros épicos
(ou narrativos), líricos ou dramáticos povoam as livrarias. Aristóteles, ainda em seu tempo,
preocupado com a variedade de escritos, classificou-os nos três gêneros citados.
Cabe a cada escritor identificar qual é o seu estilo e manter vigilância diante das
mensagens que recebe e da sintonia em que se encontra. É preciso, portanto, atenção e
cuidado com o que se pensa, com o que se escreve e com o que se publica.
Isaac Newton, antes de sua morte, queimou vários escritos seus, com o temor de que
suas elucubrações inférteis viessem a macular sua imagem pós-morte e colocar em cheque
suas ideias respeitáveis.
No gênero épico ou narrativo, explica Castro (2016), há a presença de um narrador,
responsável por contar uma história na qual as personagens atuam em um determinado espaço
e tempo. Pertencem a esse gênero as seguintes modalidades: Épico; Fábula; Epopeia;
Novela; Conto; Crônica; Ensaio; Romance.
Dentre o gênero épico, o romance é o mais utilizado pelos escritores espíritas. Não se
pode deixar de citar os clássicos: Há dois mil anos, 50 anos depois, Renúncia, Ave, Cristo!,
Paulo e Estevão, que são referências em contextualizar a Boa Nova.
Há também os textos do gênero lírico, que expressam sentimentos e emoções, são
permeados pela função poética da linguagem. Neles há a predominância de pronomes e
verbos na 1ª pessoa, além da exploração da musicalidade das palavras e manifestações
explícitas do emocional. Estão entre as principais estruturas utilizadas para a composição do
poema: Elegia; Ode; Écloga; Soneto.
De acordo com a definição de Aristóteles em sua Arte Poética, os textos dramáticos
são próprios para a representação e apreendem a obra literária em verso ou prosa passíveis de
encenação teatral. A voz narrativa está entregue às personagens, atores que contam uma
história por meio de diálogos ou monólogos. Pertencem ao gênero dramático os seguintes
textos: Auto; Comédia; Tragédia; Tragicomédia e Farsa.
No que tange aos textos dramáticos em livros espíritas, há que se ter reservas ao
utilizá-los. Não somente por causa do leitor, mas pelo equilíbrio do escritor. Isso porque, na
tentativa de forjar, por exemplo, a comédia, o autor pode tornar-se vítima de sua obra,
utilizando-se de ridicularizações que poderão afetar a autoestima de outrem. Da mesma forma
a trajédia, a tragicomédia e a farsa podem conduzir o escritor e o leitor a caminhos que gerem
conflitos internos. Tais conflitos podem alimentar as almas carentes de sentimentos de ódio,
rancor e angústia.
Não se trata de censura, como acontece nos filmes, mas se fosse possível retirar das
prateleiras as obras repletas de violência extrema, sexualidade exacerbada e linguagem
imprópria para qualquer idade, a cultura agradeceria.
Ao se considerar que o escritor, pela arte da escrita, introduz o leitor em seu mundo
interior, tal condução deve ser cuidadosa. Por isso, o escritor deve ser sensível, humilde,
verdadeiro e fiel ao bem.
Ainda é preciso ressaltar que o escritor deve entender bem do idioma que irá escrever,
de sua gramática e interpretação, deve também ser coerente e coeso em seus textos, afinal,
quem lê também busca burilar-se intelectualmente. Outras características interessantes são:
gosto pela literatura criatividade metodologia paciência determinação dinamismo pró-
atividade facilidade de comunicação escrita capacidade de análise da sociedade capacidade de
passar verdade para os leitores capacidade de se comunicar com os leitores, afirma Costa
(2015).
Evidente que é necessário talento, mas acima de tudo amor pela mensagem. Escrever
por amor é querer compartilhar esse sentimento com milhares de pessoas, por longo tempo. O
bom escritor espírita não escreve por fama, sucesso ou dinheiro. Não mesmo!Escrever também pode curar a alma. Há livros incríveis que nasceram da reciclagem
da dureza da vida real. Os que resultaram como flores que nascem do pântano, advindos de
momentos de dor e medo, de luta contra o câncer e de saídas espetaculares da depressão,
solidão e revolta. Não se trata de fuga, mas de resignificação.
Uma estratégia interessante é a coleta frequente de trechos de obras edificantes (em
ciência chamamos de fichamento, porque citamos o autor e o ano) seguidos por comentários
próprios pode dar origem a ensaios surpreendentes. Experimente!
Se houve influência significativa e direta espiritual atribua a autoria ao espírito. Se
não, assine sua obra. Colocar o nome de um espírito não a tornará nem mais e nem menos
verdadeira.
Assim, se você teve acesso a esse texto é porque faz parte de um grupo seleto. Um
grupo que ouviu a exortação de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda
criatura” (Marcos 16:15-20). O “Ide” pode ser pessoalmente ou por meio das palavras escritas
ou faladas. Pode ser por meio de romances, novelas, perguntas e respostas, textos, artigos de
opinião, cartas, poemas, estudos científicos, enfim, o veículo é importante, mas a mensagem é
mais.
Atenda ao chamado. Mais que isso, sinta-se acolhido e escolhido para servir com sua
inteligência e sensibilidade. Ofereça suas mãos para que se tornem ferramentas do bem.
Afinal, o primeiro a ser beneficiado com o produto de seu livro é o próprio escritor.
Atitude!

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Dra. Marislei Espíndula Brasileiro
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