MATERNIDADE CONSCIENTE, UMA ESCOLHA ATUAL NECESSÁRIA

 por Thais Lúcia

Publicado no jornal Diário da Manhã no dia 14 / 03 / 2017

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“Ser mãe não significa só pôr no mundo um filho, mas é também uma escolha de vida, a escolha de dar a vida” (Papa Francisco).

Infelizmente, nos dias atuais a escolha pela maternidade ainda tem sido feita de forma precipitada, o que tem levado muitas mulheres a se esquivarem das renúncias que a missão de ser mãe requer. Não são raros os casos de aparentes planejamentos que mascaram o desejo ainda confuso da família diante dessa escolha sagrada. Como resultado, muitas mães se realizam com a gestação, no entanto, poucas se preparam para o cotidiano materno.

Em termos metapsicológicos, a psicanalista Aulagnier postula que o desejo de ter filhos é inconsciente, resultado da transmissão materna, contudo, o acesso a esse desejo depende da constituição psíquica de cada um. De modo que o desejo real da maternidade está associado a evolução do desenvolvimento da mulher.

A Doutrina Espírita nos esclarece que a maternidade é compromisso assumido nas esferas espirituais, missão de extrema importância para a evolução. A resposta à questão 821 de “O Livro dos Espíritos” explica que a função destinada às mulheres pela natureza divina tem importância ainda maior do que a dos homens, pois é “ela quem dá as primeiras noções de vida”.

Vê-se que o Espiritismo ensina que a escolha de ser mãe não está apenas associada ao desejo inconsciente, mas sim a missão de educar um espírito milenar que traz consigo boas e más tendências. Tarefa que envolve o paradoxo entre alegrias e árduos desafios, visto que em cada filho habita a alma ligada aos pais não só por afinidade, mas em muitos casos por grandes desafetos. Esses que podem resultar em maus comportamentos os quais devem ser enfrentados com todos os esforços para reconduzir o filho ao bem, como nos instrui à resposta a questão 892 de O Livro dos Espíritos, ao acrescentar que “os desgostos são frequentemente o resultado dos maus costumes que foram dados desde o berço”.

Condizente com essa herança apontada pela Doutrina Espirita, o psicanalista Donald Winnicott demonstra a importância dos primeiros dias de vida do recém-nascido nos quais a mãe, desde que livre de qualquer doença psiquiátrica, desenvolve o estado denominado de preocupação materna primária. Neste ela torna-se capaz de colocar-se no lugar do seu bebê possibilitando a notória e terna habilidade de ir ao encontro das necessidades básicas do filho. Este estado, somado ao olhar entre mãe e bebê e ao toque carinhoso do ninar a criança nos braços, fortalece o contato entre os dois seres, tendo importância fundamental para a sua relação futura.

No entanto, deixar-se contagiar e envolver-se a tal ponto com o filho recém-nascido torna-se cada vez mais difícil na vida da mulher atual, já que ela não mais vivencia a maternidade como o maior desafio do seu cotidiano. Ao lado dos esforços para cumprir seu papel de mãe, estão os para atender as necessidades da vida conjugal, profissional, social e pessoal, tornando o trabalho para manter o equilibro entre todas essas funções complexo e angustiante àquelas mães que escolheram estar realmente presentes na vida do filho. Missionárias por carregarem a sublime tarefa de educar, precisam sempre manter o quebra cabeça VIDA em ordem dentro de si, caso contrário, a família e principalmente os filhos sofrerão as consequências dessa desordem interna. Posto isto, cabe a ela entender que a mãe é o esteio para a felicidade do lar.

A mulher, ao longo da história da humanidade conquistou inúmeros direitos perante a sociedade. Se há décadas atrás ela era tratada como intelectualmente incapaz de votar ou assumir cargos de alta relevância, existem hoje personalidades femininas que ocupam posições importantes para o futuro político e econômico do mundo.

Nota-se na Doutrina Espírita, por meio da resposta à pergunta 817 de O Livro dos Espíritos, a confirmação de que tanto a mulher quanto o homem são iguais perante Deus, sendo que ambos igualmente capazes de progredir. Positivo para aquelas que trabalham para ampliar as suas conquistas pessoais e profissionais buscando em outros caminhos, que não exclusivamente o da maternidade, a oportunidade para o seu crescimento espiritual.

Cabe à essas mulheres, todavia, entenderem que a frase antiga ensinada pelas suas próprias mães, “a família deve sempre vir em primeiro lugar”, precisa ser muito bem considerada em suas vidas. A mãe presente e afetuosa que educa, ensina, corrige, orienta, necessita tomar espaço de destaque nesse quebra cabeça, pois os seus filhos, tomados pelas possíveis más tendências trazidas de outras vidas, somadas aos desajustes das provações da matéria, precisam desta mulher que torna a sua caminhada evolutiva mais segura e exitosa.

O espírito Joanna de Ângelis, no livro, VIDA: DESAFIOS E SOLUÇÕES, psicografado pelo médium Divaldo Franco, compreende que neste momento no qual o nosso planeta se encontra são inevitáveis os conflitos pessoais. A eles são acrescidas as fixações íntimas que ameaçam a auto realização e a alegria no dia a dia, dando origem a perturbações na área da emoção e do comportamento. Segundo a autora, tais fixações perturbadoras podem estar associadas desde o comportamento da gestante, assim afetando diretamente o bebê ainda em formação intrauterina, como também podem estar associadas ao prejuízo da convivência familiar fragilizada pelas mães castradoras e neuróticas que transferem as suas inseguranças e todos os demais conflitos para os filhos.

Cabe ressaltar, entretanto, que se por um lado à mãe é oferecida a oportunidade e o dever de educar, por outro o filho possui o seu livre arbítrio, o que pode dificultar a tentativa materna de conduzi-lo ao caminho do bem, nos casos em que opta por trajetos diferentes daqueles aos que foi orientado. Tem-se aqui casos em que as mães perfeitamente dispostas ao afeto, presença e qualidades morais, podem ver-se diante de filhos para os quais os seus exemplos não são suficientes para conduzi-los às boas escolhas. Do mesmo modo, casos de filhos de mães extremamente ausentes, que ainda assim alcançam inúmeras conquistas na sua marcha evolutiva. De toda forma, mesmo o livre arbítrio explicando ocorrências específicas de ineficácia dos esforços maternos, a mãe nunca estará isenta da tarefa de plantar e semear a semente do bem nos corações dos seus tutelados.

Importante nos esforçarmos para que chegado o momento em que Deus irá nos perguntar: “ O que fizeste do filho confiado à vossa guarda? ”, cada mãe possa responder que fez tudo que estava ao seu alcance segundo os ensinamentos de Jesus, equilibrando-se também para manter sólidos dos outros pilares de sua vida. Ciente de que não escolheu ser mãe apenas impulsionada por seu desejo confuso e inconsciente, mas porque queria a oportunidade da maternidade, e a divina possibilidade de educar e amar aquele que lhe foi confiado como filho.

Acima das renuncias e desafios que possa implicar, a cada mãe cabe a consciência de que essa foi a principal escolha da sua vida, a de doar-se por outra vida.

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