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Homenagem a Kardec

Publicado no Jornal Diário da Manhã dia 24 / 1 0 / 2013

Neste mês de outubro a Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás deseja homenagear o Codificador do Espiritismo, o insigne Allan Kardec.

Allan Kardec foi o pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, um professor e cientista francês dedicado à educação e às ciências biológicas e exatas, mas que se notabilizou por ser o organizador do Espiritismo. Nascido em Lyon, na França, em três de outubro de 1804, filho de Jean-Baptiste Antoine Rivail, juiz do tribunal de Lyon e advogado, e Jeanne Louise Duhamel, tendo desencarnado em 31 de março de 1969, em Paris. Adotou esse nome porque recebeu uma informação espiritual de que teria reencarnado entre os druidas, na Gália, com o nome de Allan Kardec e também porque queria diferenciar a doze obras espíritas dos seus nove livros didáticos. Foi aluno brilhante de Pestalozzi e grande divulgador de suas ideias e trabalhos. Também foi casado com a professora, poetisa e artista plástica francesa Amélie Gabrielle Boudet (1795-1883), colaboradora e incentivadora constante das obras e ideias espíritas.

Kardec foi membro da Academia Real de Arras e de outras sociedades culturais da Europa. Falava fluentemente o Inglês, o alemão, o italiano, o espanhol e o holandês, além de traduzir obras para estes idiomas. Lecionava Astronomia, Anatomia Comparada, Física, Fisiologia, Matemática, Retórica e Francês. Também trabalhou como contador de várias empresas da França. Os seus biógrafos afirmam que ele, mesmo descendendo de família rica, era um homem que gostava de ter uma vida simples. Residia em um pequeno apartamento de um quarto em Paris e vivia com o necessário para sua subsistência. Não teve filhos, mas tratava os seus alunos com respeito e zelo paternal. Era um homem humilde, justo e generoso.

Conforme afirma o escritor espírita Herculano Pires, “Allan Kardec nasceu em 18 de abril de 1857” com o lançamento da monumental obra ‘O Livro dos Espíritos’. Obra filosófica que trata dos princípios da Doutrina Espírita e que despertou interesse dos principais pensadores e futuros espíritas franceses do seu tempo: Victor Hugo, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Théophile Gautier, Gustave Gelev, Jean-Baptiste Roustaing, Maurice Lachâtre, Paul Gibier, Pierre-Gaetan Leymarie, Charles Robert Richet, Victorien Sardou e outros.

O Livro dos Espíritos foi o resultado de intensa pesquisa em torno das manifestações dos Espíritos, iniciada por meio do fenômeno das mesas girantes e outras manifestações mediúnicas ocorridas ostensivamente nos Estados Unidos e na Europa no século XIX. É um livro de perguntas formuladas por Kardec e de respostas produzidas por espíritos superiores, os quais esclarecem a respeito das principais dúvidas filosóficas, científicas e religiosas da Humanidade e do objetivo espiritual do Espiritismo: ser o Consolador Prometido por Jesus. Em decorrência desse trabalho exaustivo e promissor, Kardec lança mais quatro livros, considerados clássicos do Espiritismo: O Livro dos Médiuns, em 1861, trata do aspecto científico do Espiritismo por meio do estudo da mediunidade; O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1864, obra que interpreta os ensinos de Jesus, segundo as interpretações dos Espíritos Superiores; O Céu e o Inferno, em 1865, livro que esclarece a respeito dos mecanismos da justiça divina; A Gênese, em 1868, trabalho que aborda cientificamente diversos aspectos da Astronomia e dos Evangelhos. Além dessas e de outras obras espíritas, também Kardec publicou Revista Espírita, periódico científico mensal publicado de 1858 até o ano de 1869.

O insigne Codificador Allan Kardec fez um resumo da Dou­trina Espírita na introdução de “O Livro dos Espíritos” (Edição, 72ª, da Federação Espírita Brasileira, com a tradução do seu saudoso presidente – Dr. Guillon Ribeiro) para melhor preparar os leitores e estudiosos acerca das verdades eternas ministradas pelos Espíritos superiores. Por isto extraímos de sua introdução este resumo para melhor esclarecer o leitor na compreensão de alguns pontos desta obra:

Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.

Criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.

Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos.

O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, pre­existente e sobrevivente a tudo.

O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a es­sência do mundo espírita.

Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro materi­al perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberda­de.

Entre as diferentes espécies de seres corpóreos, Deus es­colheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhe superioridade moral e intelectual sobre as outras.

A alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório.

Há no Homem três coisas: 1ª., o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2ª., a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3ª., o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.

Tem assim o Homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos.

O laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno das aparições.

O Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível conceber-se pelo pensamento. É um ser real, circunscri­to, que, em certos casos, se torna apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato.

Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são i­guais, nem em poder, nem em inteligência, nem em saber, nem em moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos superiores, que se distinguem dos outros por sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade de Deus, pela pureza de seus sentimentos e por seu amor ao bem: são os anjos ou puros Espíritos. Os das outras classes se acham cada vez mais distanciados dessa perfeição, mos­trando-se os das categorias inferiores, na sua maioria, eivados das nossas paixões; o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho etc. Comprazem-se no mal. Há também, entre os inferiores, os que não são nem muito bons nem muito maus, antes perturbadores e enreda­dores, do que perversos. A malícia e as inconsequências parecem ser o que neles predomina. São os Espíritos estúrdios ou levia­nos.

Os Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram, passando por diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida materi­al é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral.

Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante.

Tendo o Espírito que passar por muitas encarnações, segue-se que todos nós temos tido muitas existências e que teremos ain­da outras, mais ou menos aperfeiçoadas, quer na Terra, quer em outros mundos.

A encarnação dos Espíritos se dá sempre na espécie humana; seria erro acreditar que a alma ou Espírito possa encarnar no corpo de um animal.

As diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; mas a rapidez de seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição.

As qualidades da alma são as do Espírito que está encarna­do; assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro.

A Alma possuía sua individualidade antes de encarnar; con­serva-a depois de se haver separado do corpo.

Na sua volta ao mundo dos Espíritos, encontra ela todos aqueles que conhecera na Terra, e todas as suas existências ante­riores se lhe desenham na memória, com a lembrança de todo bem e de todo mal que fez.

O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o Homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos, em cuja companhia um dia estará. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natu­reza animal.

Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.

Os não encarnados ou errantes não ocupam uma região deter­minada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo. É toda uma popu­lação invisível, a mover-se em torno de nós.

Os Espíritos exercem incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pen­samento e constituem uma das potências da Natureza, causa efici­ente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados e que não encontram explicação racional senão no Espiritismo.

As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons Espíritos nos atraem para o bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação. Os maus nos impedem para o mal: é-lhes um gozo ver-nos sucumbir e asseme­lhar-nos a eles.

As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As ocultas se verificam pela influência boa ou má, que exercem sobre nós, à nossa revelia. Cabe ao nosso juízo dis­cernir as boas das más inspirações. As comunicações ostensivas se dão por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais quase sempre pelos médiuns que lhes servem de instru­mentos.

Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação.

Podem evocar-se todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revela­ções que lhes sejam permitidas fazer-nos.

Os Espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos supe­riores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem, de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os Espíritos inferiores que, inversamente, encontram livre acesso e podem o­brar com toda a liberdade entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que existam maus instin­tos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois que muitas vezes tomam nomes vene­rados, a fim de melhor induzirem ao erro.

Distinguir os bons dos maus Espíritos é extremamente fácil. Os Espíritos superiores usam constantemente de linguagem digna, nobre, repassada da mais alta moralidade, escoimada de qualquer paixão inferior; a mais pura sabedoria lhes transparece dos conselhos, que objetivam sempre o nosso melhoramento e o bem da Humanidade. A dos Espíritos inferiores, ao contrário, é incon­sequente, amiúde trivial e até grosseira. Se, por vezes, dizem alguma boa e verdadeira, muito mais vezes dizem falsidades e ab­surdos, por malícia ou por ignorância. Zombam da credulidade dos homens e se divertem à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade, alimentando-lhes os desejos com falazes esperan­ças. Em resumo, as comunicações sérias, na mais ampla acepção do termo, só são dadas nos centros sérios, onde reine íntima comu­nhão de pensamentos, tendo em vista o bem.

A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o Homem uma regra universal de proceder, mesmo para as suas menores ações.

Ensinam-nos que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à ma­téria; que o Homem que, já neste mundo, se desliga da matéria, desprezando as futilidades mundanas e amando o próximo, se avizi­nha da natureza espiritual; que cada um deve tornar útil, de a­cordo com as faculdades e os meios que Deus lhe pôs nas mãos para experimentá-lo; que o Forte e o Poderoso devem amparo e proteção ao Fraco, porquanto transgride a Lei de Deus aquele que abusa da força e do poder para oprimir o seu semelhante. Ensinam, final­mente, que, no mundo dos Espíritos, nada podendo estar oculto, o hipócrita será desmascarado e patenteadas todas as suas torpezas; que a presença inevitável, e de todos os instantes, daqueles para com quem houvermos procedido mal constitui um dos castigos que nos estão reservados; que ao estado de inferioridade e superiori­dade dos Espíritos correspondem penas e gozos desconhecidos na Terra.

Mas ensinam também não haver faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o Homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conformemen­te aos seus desejos e esforços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final.”

Que o nosso amado Jesus esteja entre nós e abençoe Allan Kardec por todo o seu trabalho de luz e de esperança.

Mércia terezinha carvalho de aguiar

-presidente da academia espírita de letras do estado de goiás-

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