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NOVOS DESAFIOS DA VIDA FAMILIAR

Eu não o conheci

Meu filho foi embora e eu não o conheci. Acostumei-me com ele em casa e me esqueci de conhecê-lo. Agora que sua ausência me pesa é que vejo como era necessário tê-lo conhecido.

Lembro-me dele. Lembro-me bem em poucas ocasiões.

Um dia, na sala, ele me puxou a barra do paletó e me fez examinar seu pequeno dedo machucado. Foi um exame rápido.

Uma outra vez me pediu que lhe consertasse um brinquedo velho. Eu estava com pressa e não consertei. Mas lhe comprei um brinquedo novo. Na noite seguinte, quando entrei em casa, ele estava deitado no tapete, dormindo e abraçado ao brinquedo velho. O novo estava a um canto.

Eu tinha um filho e agora não o tenho mais porque ele foi embora. E este meu filho, uma noite, me chamou e disse:

– Fica comigo. Só um pouquinho, pai.

Eu não podia, mas a babá ficou com ele.

Sou um homem muito ocupado. Mas meu filho foi embora. Foi embora e eu não o conheci.

Este conto, retirado do livro As laranjas iguais, de Oswaldo França Júnior, que muito nos emociona, reflete o contexto de muitas famílias atuais.

Na realidade, quando o analisamos melhor, ele nos remete a questões muito complexas, conduzindo-nos a pensar sobre o primeiro grande desafio da família atual: o da Convivência.

Não podemos nos esquecer de que conviver em família é muito diferente de viver em família.

Se há dificuldade de convivência, com certeza outros problemas surgirão, muitas vezes difíceis de serem resolvidos.

Segundo Emmanuel, em psicografia de Francisco Cândido Xavier, em Vida e Sexo:

A família é o mais importante instituto social da Terra, do ponto de vista dos alicerces morais que regem a vida.

Ela deve ser compreendida em sua diversidade sócio-econômico-cultural-espiritual, bem como em suas diferentes configurações atuais.

Como é do conhecimento de todos, estamos vivendo uma grande crise de inversão de valores, como a da corrida desesperada pelo material em detrimento do moral e, neste aspecto, a família é a mais atingida, tendo como consequência uma desagregação profunda, nunca vista até hoje.

Esta desagregação familiar, com muita frequência, gera atitudes impulsivas e desequilibradas, levando seus membros a buscar soluções imediatistas, que imaginam ser o caminho mais “fácil” para resolver complexos problemas de relacionamento.

Dizem assim: “… Então cada um toma conta de sua vida.”

Este rompimento de laços familiares ocorreu, porque hoje, infelizmente, as pessoas vivem sob o mesmo teto, cultivando mágoas, ressentimentos, isolamento, falta de diálogo. Enfim, mal conseguem tolerar-se.

Há muitos pais, inclusive, que abandonam seus filhos, os quais se tornam órfãos de pais vivos.

E nesta perda total dos vínculos familiares os mais prejudicados são as crianças, que crescem sem nenhuma referência de família.

Podemos concluir sem a menor dúvida: a família se encontra adoecida!

A questão 775 de O Livros dos Espíritos nos explica:

Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços de família?

Um agravamento do egoísmo.

Sabemos que para combater-se o egoísmo há a necessidade da prática da humildade, aprender a conviver com as diferenças que existem em todas as famílias, pois é no lar que ocorre o reencontro de Espíritos para os reajustes necessários.

A família é a primeira escola, e o grande teste para combater-se o orgulho e o egoísmo; ela tem que ser vista como um todo: crianças, adultos e idosos integrados.

Ao mesmo tempo, deve desenvolver, através da convivência, o auxílio e respeito mútuos, através da prática da humildade, do perdão, tolerância, paciência, compreensão, renúncia e, sobretudo, muito amor.

É, assim, a grande oportunidade para a autoeducação.

Em relação aos filhos, por exemplo, quando nasce uma criança, ou melhor, quando se espera um bebê, os pais começam a imaginar:

– Como será o seu rostinho?

– Vai parecer-se com quem?

– Como será o seu futuro?

– Irá casar-se? Teremos netos?

Todos estes questionamentos são muito saudáveis, porém nunca devem esquecer de perguntar-se: – Estamos preparados para educá-lo?

E este é outro grande desafio da família atual: a educação dos filhos. 

O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 14, item 9, faz-nos um importante alerta:

Desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que trazem de sua existência anterior; é preciso observá-los; todos os males têm origem no egoísmo e no orgulho. Analise os menores sinais e se esforcem em combatê-los antes que criem raízes.

Fica, então, bem claro que a formação familiar tem como grande objetivo, entre outros, diminuir o egoísmo e o orgulho presentes no ser humano. Com isto, há um incentivo para desenvolver a solidariedade, o bem querer e de fortalecer, pouco a pouco, os laços de amor, permitindo que um passe a pensar no outro, sacrificar-se pelo outro, deixando o egoísmo de lado.

Na sequência em que chegam os filhos, os cônjuges se unirão, somando esforços, a fim de educarem, com elevada dedicação, os filhos que foram colocados aos seus cuidados e, por sua vez, o combate ao egoísmo continuará sendo exercitado.

Portanto, os pais não podem esquecer que têm uma missão e devem fazer o máximo para cumpri-la.

A questão 582 de O Livros dos Espíritos é bem clara a esse respeito:

Pode a paternidade ser considerada uma missão?

É, sem dúvida, uma missão, e é ao mesmo tempo um dever muito grande que obriga, mais que o homem pensa, sua responsabilidade diante do futuro. Deus colocou a criança sob a tutela de seus pais para que eles a dirijam no caminho do bem, e facilitou a tarefa, dando a criança um organismo frágil e delicado que a torna acessível a todas as influências. Muitos há, no entanto, que mais cuidam de aprumar as árvores do seu jardim e de fazê-las dar bons frutos em abundância, do que de formar o caráter de seu filho. Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do bem.

Deste modo, compete aos pais procurar unir todos os esforços para uma boa convivência, porque assim se torna mais fácil educar.

A educação é a arte de formar caráter, assim, a criança e o jovem têm que ser amparados em todos os aspectos: psicológico, biológico, afetivo e espiritual, até a idade adulta.

Quanto à educação, os pais devem estar bem preparados para muitos desafios, porque, atualmente, as influências externas que os filhos recebem são muito grandes e estas devem ser analisadas e bem orientadas, como as da televisão, da internet, do smartphone, pressão da sociedade, questões como a sexualidade, relacionamentos amorosos etc.

Ainda sobre a educação, vejamos o que nos diz Divaldo Franco, em seu livro Compromissos de amor, em um belo texto ditado pelo espírito Amélia Rodrigues.

A verdadeira educação é aquela que tem caráter global proporcionando hábitos morais saudáveis formadores do caráter, da personalidade, integrando a essência espiritual, e cujas conquistas são transferidas de uma para outra encarnação.

Esta educação tem que ser conduzida nos métodos psicopedagógicos da atualidade, e ampliados com a compreensão espiritual.

Este processo concentra-se no amor, direcionando a educação intelectual e moral.

Neste sentido, a família sempre desempenha um papel de grande importância, porque o lar sendo a primeira escola, o exemplo é fundamental.

Educar-se para melhor educar, eis o grande desafio.

Muitos pais perguntam, quando têm dificuldades com os filhos:

– Onde foi que errei se dei a mesma educação a todos?

O erro está aí. Cada espírito exige um tipo de educação, mas os pais não percebem isto.

Outro engano é quando os pais criam os filhos como se não fossem conviver com a sociedade.

Façamos a seguinte pergunta e reflitamos bem: Estou educando para mim ou para a vida?

Se estou educando para mim, devo trabalhar bastante o egoísmo, pois antes de ser nossos filhos, são filhos de Deus. 

O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XIV, item 9, traz-nos outro grande ensinamento:

…Espíritas! Compreendei o grande papel da humanidade, compreendei que quando se gera um corpo, a alma que nele reencarna vem do espaço para progredir. Cumpri vossos deveres e colocai todo o vosso amor ao aproximar essa alma de Deus; esta é a missão que vos está confiada e recebereis a recompensa se cumprires fielmente.

Vossos cuidados, a educação que lhe dareis, ajudarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro.

Lembrai-vos que a cada pai e a cada mãe Deus perguntará:

– Que fizeste do filho confiado a vossa guarda?

Pois bem. Sabemos que os desafios da família atual são inúmeros. Tentamos fazer um apanhado geral, entendendo que cada família necessita perceber suas fragilidades e trabalhar para vencê-las.

Amigos leitores, queridos pais, queremos lembrar, mais uma vez, que em cada momento, nas coisas mais simples, surge a oportunidade de manter uma boa convivência, para o fortalecimento dos laços familiares.

Quando seu filho pedir “- fique comigo só mais um pouquinho…” é a oportunidade de oferecer-lhe uma atenção de qualidade, mesmo que seja breve. Converse com ele, diga que o ama.

Para ele, uma olhada em seu pequeno machucado é um gesto de atenção e carinho. Seu filho está apenas querendo dizer, preste atenção em mim, eu preciso de você.

Ele também não quer um brinquedo novo, ele quer apenas um pouco de sua companhia.

Somos todos muito ocupados, mas podemos organizar nosso tempo, repensar nossas prioridades para que no futuro, quando seu filho for adulto, formar sua família e não estiver com você, estes laços já estejam muito consolidados e com certeza você possa dizer:

– Eu o conheci. Nós nos amamos!

 

Marly Arruda Camargo, espírita, palestrante do Grupo de Edificação Espírita/GEE e membro da cadeira nº16 da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás/ACELEG.

 

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