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Bloomsday

O Dia de Bloom e a espiritualidade em James Joyce e Guimarães Rosa

Os estudos da ciência literária sobre a paródia nas últimas décadas colocam ênfase num importante dado cultural relacionado ao aspecto etimológico desse recurso discursivo. Para o senso comum, a paródia funcionaria apenas como um índice de ironia negativa de um texto em relação a outro texto-fonte, uma imitação burlesca. A releitura que autores como Linda Hutcheon e Gérard Genette apresentam, no entanto, buscam na origem da palavra uma nova perspectiva de interpretação à paródia.

O termo é formado por “para” e “odos”, transliterados do grego, e significam literalmente um canto ao lado de outro canto, numa perspectiva não só de oposição, mas também de complementaridade, segundo Hutcheon em “Uma Teoria da Paródia”. Já não se trata mais somente de ridicularizar um texto matriz, podendo a paródia também representar uma grande homenagem, conforme essa autora. Nesta segunda acepção, a década de 20 do século passado viu surgir uma das maiores realizações de todos os tempos desse gênero narrativo: o romance “Ulisses”, do escritor irlandês, James Joyce. Nessa obra seminal da contemporaneidade literária, Joyce realiza, com mestria cuja análise se encontra longe de ser esgotada, uma paródia à segunda obra de Homero, A Odisseia, que desdobra em sua narrativa os acontecimentos da guerra de Troia apresentados na Ilíada.

Em Ulisses, o texto parodístico não tenta reproduzir simetricamente os longos anos do herói homérico em sua jornada de volta para casa, enfrentando mares, feiticeira e deuses. Bem no espírito de época, ou zeitgeist, que viu o advento da teoria da relatividade de Albert Einstein, cuja proposição trouxe uma revolucionária perspectiva de tempo e espaço para o olhar científico humano, o protagonista joyceano condensa em um dia a década que Odisseu levou para conseguir retornar para a sua amada Penélope em Ítaca. Assim, tem o leitor acesso à mente de Leopold Bloom, o Ulisses de Joyce, podendo contemplar por seus olhos como o mundo se lhe afigurava sob vários ângulos.

O dia escolhido por James Joyce para descrever a rica subjetividade de seu personagem principal é um 16 de junho. O ano em que se passa a sua aventura intimista é 1904. A complexidade da obra, que influenciaria decisivamente importantes escritores mundo afora nas décadas seguintes, granjeou admiradores fervorosos entre os seus leitores. Da iniciativa desses fãs, surgiria o bloomsday, o Dia de Bloom, que é comemorado na Irlanda na data em que Leopold Bloom perambula pela cidade imerso em seus pensamentos e afazeres, numa rotina que seria característica do século e que mereceria o olhar de outros gênios literários, como Franz Kafka em “A Metamorfose”.

A influência de Joyce é tão marcante no contexto literário e cultural da contemporaneidade, que até a ação de seus fãs de instituírem o bloomsday foi mimetizada por outros segmentos na cultura pop. Na atualidade, são famosas as Comi-cons, grandes reuniões que aglutinam legiões de admiradores do universo da arte pop com seus cosplays que replicam personagens de filmes e HQs, como super-heróis, jedis, mangás e outros. Mas a ampla influência de Joiyce sobre a cultura do século 20 se estende, também, a aspectos como o da espiritualidade mediada pela literariedade que, segundo o linguista Roman Jacobson, é o que torna uma escrita uma obra literária.

INFLUÊNCIA LUSÓFONA E RELIGIOSIDADE

Se “A Odisseia” de Homero culmina na volta do herói para casa, para a sua fidelíssima Penélope, em Ulisses se tem o retorno de Leopold Bloom para a sua esposa, que na obra se chama Marion, ou Molly, Bloom, que da sua parodiada guarda apenas uma espécie de fidelidade extremamente subjetivada, pois no transcurso do dia de Bloom ela, que é cantora, encontra-se com seu empresário para um relacionamento extraconjugal.

As reflexões de Molly Bloom encerram o volume e nelas se percebe a sua afetividade por Leopold Bloom, apesar das suas traições. A técnica narrativa utilizada por James Joyce no capítulo em que Molly apresenta em retrospecto os seus porquês para a infidelidade, influenciaria na cultura lusófona autores como José Saramago e Guimarães Rosa. O primeiro parece ter aproveitado do entrecho narrativo joyceano a estilística bastante comum em sua produção, caracterizada pela economia na pontuação e nas vírgulas, que tenta mimetizar a fluência do pensamento.

Guimarães Rosa, por sua vez, parece retrabalhar na narrativa de “Grande Sertão: Veredas” a longa fala da Penélope joyceana consigo mesma, que encerra Ulisses. No romance brasileiro, Riobaldo Tartarana dialoga em sua fazenda com um interlocutor da cidade grande, contando suas aventuras à época em que funcionou como jagunço de um temido bando das Minas Gerais, que incursionava também por Goiás e pela Bahia. Os índices joyceanos na formatação do romance de Rosa são muitos, tanto formais quanto conceituais. Um dos mais evidentes é a forte carga psicológica de que ambos estão impregnados.

Um outro índice presente é a paródia à Linda Hutcheon em que Rosa, por assim dizer, homenageia Joyce. Dentre os exemplos possíveis, podemos pinçar o problema do espiritualismo que se mostra marcante no espelhamento que se pode realizar entre as duas obras. Ao caminhar pelas ruas de Dublin, Leopold Bloom se depara com um rapaz cego, o que o faz refletir sobre o porquê de alguém nascer nessa sofrível condição. Onde estaria a justiça? Onde estaria Deus?, questiona-se Bloom. Ele mesmo responde, apontando uma das possibilidades aventadas pelo espiritualismo: “Chamam de carma essa transmigração pelos pecados que você cometeu na vida passada a reencarnação metem psi coisas. Meu deus, meu deus, meu deus”.

Em Grande Sertão: Veredas o escritor brasileiro reconfigura esse episódio de Ulisses quando Riobaldo relata a seu interlocutor citadino um dos muitos casos que viu no sertão das Gerais. Narra o herói rosiano que um certo Aleixo, homem perverso, que matava apenas para ver a careta da vítima, casou-se e teve três filhos. Na primeira infância, todos adoeceram sequencialmente, resultando em cegueira para o infeliz trio. Aleixo se converte à religião, tornando-se um homem bom e caridoso. Dizia ele que a doença dos filhos fora providencial para o seu encontro com a fé.

Riobaldo se revolta com aquela fala de alguém tão perverso, que esfaqueara um velhinho pelo simples fato de ter sido abordado com um pedido de esmola. O que as crianças teriam a ver com a maldade do pai? Seu compadre, Quelemém, que era “seguidor da doutrina da Cardéque”, explica-lhe que as crianças poderiam ter sido perversas numa outra encarnação, sendo cúmplices do pai em maldades inconcebíveis. Nas palavras do personagem, no maravilhoso sertanejo literário rosiano que também parece ter se inspirado no experimentalismo lexical de Joyce: “por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar”.

Em James Joyce, Leopold Bloom levanta o problema a partir de um encontro na rua, quando esboça uma explicação de cunho espiritualista para o problema da cegueira; em Guimarães Rosa, o relato é parodiado numa sequência um pouco mais ampliada, apresentando a perspectiva do espiritualismo espírita que se estabeleceu no Brasil a partir da França, através da fala elidida de compadre Quelemém, seguidor do espiritismo de Allan Kardec.

Ao analisar “Grande Sertão: Veredas”, quando de sua publicação, o crítico literário Antonio Candido afirmou que nessa monumental obra da literatura brasileira há de tudo para quem souber ler. O mesmo conceito se aplica, sem a menor sombra de dúvida, ao portento literário de James Joyce, “Ulisses”, cuja importância pôde conseguir um dia especial no calendário cultural do último século, um feriado, feito honorífico literário alcançado antes somente pela Bíblia quando tomada em sua vertente de literatura, conforme pudemos apresentar em nossa pesquisa de doutoramento intitulada “O Rizoma Bíblico-Literário” (https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/4029).

GISMAIR MARTINS TEIXEIRA – Pós-Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

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